"O Riso dos Outros" e a Caretice no Politicamente Incorreto

Manhã de sábado quente e eu resolvi escrever sobre um tema já falado aqui antes: o humor. Depois finalmente arrumar algum tempo para assistir ao documentário “O Riso dos Outros”, com direção de Pedro Arantes, algumas falas dos participantes me deixaram com vontade de falar mais sobre o assunto aqui. Mas antes de tudo, gostaria de dizer que o documentário foi muito bem dirigido e que faltava mesmo um bom posicionamento acerca do tema vindo de quem tem realmente visibilidade na mídia, já que os blogs contemplam um público muito seleto.

Afinal, o humor precisa ou não ter limites? É negativo ser politicamente correto? O humorista precisa ter noção sobre a responsabilidade social de suas piadas? Devemos proibir piadas sobre determinados assuntos? Essas foram algumas das perguntas feitas pelo documentário e que geraram argumentos muito interessantes, mas lendo os comentários de alguns telespectadores no youtube, percebi que ainda é difícil para algumas pessoas entender porque é complicado fazer piadas com negros, mulheres, judeus, homossexuais, estupro e que há muita gente que crê na “patrulha do politicamente correto”, que acha que é uma caretice imensa se indignar com piadas do gênero, revelando um pensamento no mínimo paradoxal.

o riso dos outros

É um tanto óbvio que o humor tem a função de fazer rir sobre o que há de torpe e caricato na sociedade, e que, sendo assim, ri com os preconceitos já existentes, não necessariamente criando preconceitos novos. O problema é que o riso gerado nesses casos, serve para perpetuar o que já se pensa sobre o assunto, enaltecer o câncer que é o senso-comum e não há nada de transgressor, inovador e revolucionário em falar o que já vem sido dito por décadas. Sinceramente, não entendo a graça de ser politicamente incorreto e defender que as mesmas piadas continuem sendo feitas com minorias que lutam diariamente para que sua realidade possa ser mudada. Isso é ser careta, reacionário, conservador, acreditar que privilégios precisam ser mantidos para um seleto grupos de cidadãos merecedores, enquanto os outros devem ter seus direitos negados e ceifados. Há algum aspecto positivo em ser uma dessas coisas? Acredito que não.

Por outro lado, fazem uma confusão imensa com o ser estereotipado de “politicamente correto”. “Ah, é o fulano que não acha graça em nada”, “É o certinho sem graça”, “É um careta, vive no sáculo passado”. Não faz sentido, são ideais controversas e paradoxais. O politicamente correto é justamente o oposto disso, é aquela pessoa cansada de viver por décadas em uma sociedade que não desfaz seus preconceitos, que exclui as mesmas minorias, e que é revolucionário e transgressor o bastante para se posicionar contra o que o senso-comum acredita que é o correto e natural, e cobrar mudanças. Não há nada de errado em ser politicamente correto e é preferível ser considerado um desses chatos a ser um “normal” totalmente adaptado a uma sociedade esquizofrênica e doente!

Na minha humilde opinião, caricato e torpe é que ainda existam pessoas que consideram negros inferiores, que se preocupam e são contra a sexualidade do outro, que creem na incapacidade das mulheres, que acham muito legal fazer piadas com judeus que foram dizimados e carregam um sofrimento terrível em sua história. O problema não está no tema da piada, mas no alvo da piada. Como foi dito no documentário “”O melhor tipo de humor é o que faz a gente rir do carrasco, e não da vítima…”, não porque devamos escolher novos alvos de discriminação, mas porque é necessário um humor que faça pensar.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=LTxtEZGp58g]

Adele Live At Largo (2010)

Achei que valia a pena compartilhar:

Someone Like You:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=JS2kenvaIuo]

Don’t You Remember:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=RDRwqTNLGDs]

Turning Tables:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=w44dk4ysnz8&feature=relmfu]

Rolling in the Deep: 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=O-Dmt2-7VqQ]

Outros artistas interpretam: The Beatles

The Beatles é uma daquelas bandas eternas, não é? Criada em 1960, em Livepool, até hoje permanece atual e conquista fãs por todo o mundo, servindo ainda de influência para muitas bandas que se inspiram não só em seu estilo, mas em suas mensagens e em suas capas de disco, propagando’ sua essência por aí! A importância dos Beatles é tamanha, que Dave Grohl, vocalista do Foo Fighters, escreveu uma carta a respeito do lançamento de uma coletânea de canções dos garotos de Liverpool dizendo o seguinte: “Se não fosse pelos Beatles, eu não teria sido um músico. Simples assim. Desde muito jovem, fiquei fascinado com suas músicas. Com o passar dos anos, mergulhei no catálogo. O groove e a fanfarronice. A graça e a beleza. A escuridão e a luz. Eles pareciam ser capazes de tudo. Não havia barreiras. Essa liberdade parecia definir o que conhecemos hoje como Rock and Roll.”.

Então foi pensando nisso que resolvi fazer algo diferente aqui no blog e dividir com vocêsalguns covers de músicas dos Beatles tocadas por outros artistas famosos! As músicas não estão em ordem de qualidade/gosto.

  • Para começar, uma versão do Oasis para Strawberry Fields Forever, já que o vocalista da Noel Gallagher foi tão influenciado pela banda que é famoso por já ter dito a seguinte frase: “John Lennon tinha um problema: ele achava que era Deus. O meu problema? Eu acho que sou John Lennon.” [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=m9tfLzmJusk]
  • Fiona Apple também fez uma versão incrível para a música Across The Universe! Ficou simplesmente espetacular e não dá vontade de parar de ouvir! [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=AZ5WPXxNzPU&feature=player_embedded#!]
  • Temos também Elton John cantando Lucy in the Sky with Diamonds, que é tão sensacional quanto a música original! [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=JZN9bCEGntg]
  • Também tocada por uma banda britânica, Florence and the Machine, minha dica é uma versão de Oh! Darling. A música ganhou um tom mais indie rock, e foi uma das coisas que levaram à minha paixão pela voz de Florence Welch, uma das grandes revelações da música britânica dos últimos anos! [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=OwgWbG84iXo]
  • Outra cantora que fez um cover da música Oh! Darling foi Sara Bareilles: [youtube=http://www.youtube.com/watch?feature=fvwp&v=OiUa2L3Axbc&NR=1]
  • Ozzy Osbourne, apesar de ser considerado pai do heavy metal, é um grande fã dos beatles, e se orgulha por se chamar John (Ozzy é só um apelido) assim como seu maior ídolo John Lennon! E aí fica sua versão de In my Life, uma bela homenagem! [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yOfl1Oqe_DA&feature=player_embedded#!]
  • Uma das minhas preferidas é do Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam, cantando You’ve Got to Hide Your Love Away. Genial! [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=WJwLAxlio9w]
  • Colbie Caillat cantando Here Comes the Sun! [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=NadClRkUtzk&feature=related]
  • Feito por mais uma mulher da música, a também inglesa Amy Winehouse, uma versão que pouca gente ouviu da música All my Lovin’, que deixou a música mais voltada ao blues e ainda assim linda. Saudades de Amy Winehouse! [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=brp515JORqk]
  • A banda Arctic Monkeys tocou a música Come Together nas Olimpíadas de Londres. [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=fkeshvf2Imw]

E aí, qual foi a versão que vocês mais gostaram?

Onde estão os imperfeitos?

Nos esforçamos para não comer muito e nos mantermos magros e criamos cada vez mais obsessões com nosso peso e nossas formas. Submetemos nossos corpos à torturas: cirúrgias plásticas com finalidades puramente estéticas, métodos de depilação cada vez mais eficientes e não menos doloridos, e cuidados com nossa aparência que levam a psicopatologias modernas e amplamente aceitas.

Paralelamente, passamos metade dos nossos dias nos privando de nossas próprias opiniões, com um alerta ligado nos dizendo que precisamos ser “do bem” o tempo todo. Não somos sinceros porque uma simples opinião pode ser sinônimo de ofensa. Então acreditamos que somos desprovidos de preconceitos, que nossa moral está acima de qualquer prova e vivemos nesse ambiente simplista e ilusório. Sequer temos coragem de perceber que embora nosso alerta de ações politicamente-corretas-ou-não esteja sempre ligado, ele não nos impede de sermos hipócritas, arrogantes e prepotentes. Nosso ego nos faz crer que nossas verdades são sempre as mais sábias e inquestionáveis. Não odiamos os gordos, mas cometemos loucuras para permanecermos magros, assim como xingamos infratores de “baianos” no trânsito, mas não temos nada conta o nordeste e sua gente que tem “sotaque feio e vem tumultuar o metrô de São Paulo”.

Além disso, embora não acreditemos, nos achamos tão superiores uns aos outros que perdemos a noção do bom-senso e do respeito em nome de modismos questionáveis. Desrespeitamos a fé alheia em nome do nosso direito de não crer em nada. Desrespeitamos a vida alheia pelo nosso direito de viver à nossa maneira. Desrespeitamos o direito do outro de ter livre expressão em nome do nosso direito de expressão!

Não acredito que tenhamos todos que mostrar atitudes exemplares (quando muito as pessoas ainda servem de exemplo para seus filhos), e então, não faz nenhum sentido vivermos como se tivéssemos a obrigação de sermos incríveis e boa gente o tempo todo, isso só leva a maiores confusões! Deveríamos, de uma vez por todas, assumir que somos hipócritas, paradoxais, contraditórios, presas de nossa própria vaidade, sem excessões! Nada mais rejuvenescedor e construtivo do que poder mudar de opinião quantas vezes quiser, mas estamos limitando o nosso direito de ter opiniões, confundindo liberdade com a escravidão gerada pelas próprias regras que criamos e alimentamos.

Se julgassemos menos, talvez tivessemos mais amigos e amássemos mais. Se refletíssemos mais, talvez conseguíssemos enxergar outros pontos de vista melhores. Se parássemos de desperdiçar nosso tempo com pessoas, tarefas e pensamentos que nos sugam e nos cansam, talvez tivéssemos mais tempo para nós e para os nossos e soubéssemos aproveitar mais… Se assumíssemos nossa condição, talvez sobrasse mais tempo para entender que sim, podemos ter opiniões, criticar e odiar o que ou quem quisermos, desde que tenhamos fundamentos para tanto, e que isso não é nenhuma falha de caráter. Creio, inclusive, que parar de fingir as coisas seja uma possível solução para a diminuição dos índices de câncer.

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As versões de "Please, please, please, let me get what I want".

Uma das bandas mais importantes do cenário britânico de rock dos anos 80 foi o The Smiths, lançando em 1984 um disco de nome homônimo, com grande carga política e já grandes hits que virariam sucesso, como “How soon is now?”, “Heaven Knows I’m Miserable Now” e “William, It Was Really Nothing”. Em seu segundo disco, denominado “Meat is Murder” ou  “A carne é morte”, já mais madura, a banda apresentava inovações musicais e Morrissey defendia o vegetarianismo, uma bandeira que ergue até hoje, sendo este importante para afirmar o caráter político da banda. Porém é no terceiro disco,  “The Queen is Dead”, lançado em 1986, apresentando sucessos como “Cemetry Gates”, “The Boy with the Thorn in His Side”, “There Is a Light That Never Goes Out” e “Some Girls Are Bigger Than Others”, que o Smiths começou a enfrentar turbulências internas e após o lançamento de seu quarto disco, “Strangers, Here We Come”, em 1987, a banda se separou, por divergências entre Morrissey e o guitarrista Johnny Marr, e não mais se reencontrou mesmo após diversas oportunidades oferecidas aos integrantes.

A música “Please, please, please, let me get what I want”, lançada na coletânea “Hatful of Hollow”, em 1984 no Reino Unido – porém apenas em 1993 nos EUA – é até hoje considerada um grande sucesso da carreira do The Smiths, sendo apresentada inclusive nos shows na carreira solo posterior de Morrissey e tendo sido interpretada por diversas bandas que deram um aspecto diferente à canção. Veja abaixo algumas delas!

Please, please, please, let me get what I want“, sob o comando dos também britânicos da banda Muse:

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Na versão dos duos Agridoce, de Pitty e Martin Mendezz:

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e Tinderbox, de Monique Houraghan e Dan Tucker:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=LvmjzYUVafk]

A incrível versão do Deftones:

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A versão de She & Him, que fez parte da trilha sonora do longa 500 dias com ela (500 days of Summer):

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The Dream Academy, com uma versão instrumental muito boa:

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Murar o medo – "Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós"…

Ao analisar a forma como estamos conduzindo nossos atos e nossos pensamentos, afirmo que estamos nos desumanizando a passos cada vez mais largos, repetindo as ações do passado onde iniciamos uma ode ao medo e ao terror. Com isso, além de termos oprimido, tirado o direito à privacidade e à liberdade de expressão e pensamento, passamos também a justificar a violência, o preconceito, interesses econômicos e descaso com problemas que deveriam ser de importância de toda a humanidade, como a miséria, a AIDS, e a falta de Direitos Humanos. Tendo nossa justificativa, nos portamos como senhores donos do mundo, criando uma relação onde poucos ganham e muitos perdem…

Eu não poderia falar mais do que o escritor Mia Couto, e esses pensamentos contidos nesse vídeo deixam muitos questionamentos interessantes. Recomendo o vídeo e o texto segue abaixo para quem quiser acompanhar!

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=5SUAsNXzcN0]

Murar o medo – Mia Couto

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.

Mia Couto