Sobre adequar-se…

Ser mulher não é tarefa fácil. Ser mulher e não fazer parte do padrão branca, magra, alta, bonita e gostosa, é mais difícil ainda. Fica impossível não sentir inveja dos homens por seu universo de preocupações e variações hormonais ser muito menos complexo do que o feminino. Fica ainda mais difícil de não sentir inveja dos homens por vê-los crescendo livremente aprendendo a se impor como indivíduos enquanto nós, mulheres, crescemos aprendendo a nos castrar, nos adequar, nos comportar. Enquanto eles se sujam, aprendemos como devemos nos sentar para não mostrar a calcinha. Enquanto eles comentam sobre a bunda das garotas ou sobre seus recordes de pegação, estamos preocupadas em não termos fama de galinha ou determinadas a nos adequar ao gosto deles. “Não pode ser muito alta e nem muito baixa. Nem gorda e nem magra demais. Tem que ter peito e ter bunda. Cabelo com cachos, só se não for ruim. Se beijou vários meninos da escola ou não se encaixa nas alternativas anteriores, não serve pra namorar, só serve pra ficar.”. E nessa ânsia pueril de sermos aceitas é que entramos em dietas malucas, choramos na frente do espelho por termos celulite, estrias, peito de menos, gordura demais, a bunda que não está empinada, o rosto que está com espinhas, o cabelo que não fica no lugar. Nunca parecemos boas o suficiente, adequadas o suficiente, ideais o bastante para sermos desejadas, amadas e queridas quanto as garotas photoshopadas nas capas de revistas e nos papéis principais.

Faz muito tempo que tento escrever esse texto, mas nunca consigo por motivos de ~~ não quero soar como a feminista mal amada e cheia das neuras ~~. Mas a questão é que, mesmo com toda a consciência que adquiri com horas de leituras e discussões sobre as opressões que sofrem as mulheres perseguindo um padrão de beleza inalcançável, não consigo me livrar dessa pulga atrás da minha orelha querendo me fazer acreditar que devo me adequar, que não sou boa o suficiente, que nunca conseguirei ser feliz de verdade enquanto eu não for linda e incrível como uma ~~mulher ideal~~deve ser. Nunca consigo me privar de pensar que eu me sentiria muito mais feliz se tivesse o quadril um pouco mais largo e gastasse 15 mil pilas colocando um implante discreto de silicone nos peitos, mesmo que fosse obrigada que enfrentar meu medo absurdo de hospitais, agulhas, bisturis e o risco real que uma cirurgia desse nível possui. Ainda que eu odeie esses padrões absurdos, tente arrancar essas ideias fixas da minha cabeça e acredite veementemente que tudo isso não passa de um desperdício de tempo, dinheiro e sanidade, não consigo me livrar. É mais forte do que eu.

E é triste que a nossa felicidade seja rifada por essas preocupações. É triste a gente passar metade de uma vida desaprendendo tudo o que nos ensinaram desde as barrigas de nossas mães e soframos nos sentindo ridículas, ainda que sejamos incríveis de fato, por não fazermos o tipo desse ou daquele rapaz. Requer muito trabalho não sucumbir às pressões que nos cercam de todos os lados e aprendermos que, ao invés de nos adequar, devemos valorizar quem nos ama e admira por quem somos, independente de como somos. Me parece, no momento, a luta de uma vida inteira. E a gente passa uma vida inteira aprendendo a se gostar enquanto poderia estar aprendendo qualquer outra coisa, não fosse a necessidade capitalista de senhores que buscam lucrar abalando nossa auto estima.

 

Tirem seus padrões do meu corpo

De tempos em tempos surge alguma polêmica envolvendo machismo e feminismo que gera discussões imensas na internet. As meninas acusam os rapazes de fazerem piadinhas infames reduzindo sua condição de mulheres e dizem que eles usam a palavra “mulherzinha” como xingamento, tratando-se de ofensa ao gênero. Do outro lado, os rapazes afirmam que a graça do humor está no politicamente incorreto e que isso não é machismo coisíssima nenhuma. Basta uma pronunciação em 140 caracteres e a guerra está declarada!

Embora muita gente tente tapar o sol com a peneira, é inegável que vivemos em uma sociedade machista, que cultua o estupro (veja definição de estupro aqui se você acha exagero) e ficar me atendo a isso só levaria esse texto a ser idêntico aos milhares de textos feministas que circulam por aí – não os desmerecendo. A questão é: será que temos dimensão do quanto esse problema nos afeta?

Hoje, para ser socialmente aceita, a mulher precisa ter peito, bunda, cintura esbelta e fazer depilação à cera! Coitada da que não estiver em dia com a depilação, afinal, que nojo ter pelos! Se outrora os padrões eram outros e permitia-se alguns quilos e pelos a mais, a evolução da moda e dos padrões está nos levando a um retrocesso enorme chamado de caretice! É feio ser diferente! Estamos fabricando garotas cada vez mais inseguras que baseiam suas vidas e auto-estima nesses padrões e, por conta deles, acabam levadas a quadros depressivos, distúrbios alimentares e, muitas vezes, à morte! Mulheres que perdem um dos bens mais precisos que poderiam ter: o amor próprio, e são levadas diariamente a se sentirem péssimas por não se parecerem com beldades, com quilos de photoshop nas nádegas, ditando regras em capas de revistas feitas para satisfazer o gosto masculino.

Elas fazem de tudo para se adequar, de dietas malucas a procedimentos cirúrgicos dolorosíssimos. Dentre as cirurgias plásticas que mais estão em alta, o implante de próteses de silicone para os seios é o líder no Brasil, seguido da lipoaspiração e das plásticas de rosto. E não é que já existe até plástica íntima?

Penso que um dos papeis mais importantes do feminismo é levar as mulheres a aceitarem o próprio corpo e respeitarem a si mesmas. Nascemos um país miscigenado, nada mais natural que cada mulher possa ser bonita de sua maneira. Branca, Parda, Oriental, Negra, mulher-não-capa-de-revista!

Essa é uma tarefa árdua, principalmente quando percebemos que mesmo em manifestações incríveis como a Marcha das Vadias (não entende ou acha que as meninas que participam querem apenas mostrar os seios, leia esse texto explicativo), em que os protestos agem no sentido de liberar o corpo feminino dos padrões machistas, há quem veja as fotos para dizer que gorda não pode sair pelada, se sentir bem consigo mesma, que peito não pode ser caído, que mulher de verdade precisa ter seios como os de qualquer mulher-objeto por aí, etc.. E, muito embora façamos trabalho de formiguinha, ainda acredito que num futuro não tão distante, vamos chegar ao nível evolutivo de respeitar as diferenças e nos livrar dessa massificação horrível de peitos, bundas e cérebros. Que o feminismo seja usado menos para causar polêmica e mais para ajudar na construção de uma nova identidade feminina, livre de padrões doentios e limitadores.

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Acho engraçado: mostrar peito e bunda no carnaval e na playboy as mulheres podem, né?