Murar o medo – "Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós"…

Ao analisar a forma como estamos conduzindo nossos atos e nossos pensamentos, afirmo que estamos nos desumanizando a passos cada vez mais largos, repetindo as ações do passado onde iniciamos uma ode ao medo e ao terror. Com isso, além de termos oprimido, tirado o direito à privacidade e à liberdade de expressão e pensamento, passamos também a justificar a violência, o preconceito, interesses econômicos e descaso com problemas que deveriam ser de importância de toda a humanidade, como a miséria, a AIDS, e a falta de Direitos Humanos. Tendo nossa justificativa, nos portamos como senhores donos do mundo, criando uma relação onde poucos ganham e muitos perdem…

Eu não poderia falar mais do que o escritor Mia Couto, e esses pensamentos contidos nesse vídeo deixam muitos questionamentos interessantes. Recomendo o vídeo e o texto segue abaixo para quem quiser acompanhar!

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Murar o medo – Mia Couto

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.

Mia Couto

Live and let live!

O questionamento, do verbo questionar: (ques.ti.o.nar (lat quaestionare) vtd, vti e vint 1 Fazer questão sobre; debater com ardor, discutir acaloradamente: Questionar alguma coisa com alguém. Questionar com alguém. Questionar acerca de (a respeito de, de, em, por, sobre)alguma coisa: Detesto questionar. vtd 2 Contestar em juízo: Questionar o direito de alguém.), tem me parecido um direito cada vez mais distante e também distorcido. Questionar se tornou equivalente a comprar brigas, usar de falácias, quando na verdade constitui uma atividade importante para a formação das nossas ideias e do nosso senso-crítico e significa simplesmente argumentar (com dados concretos e coerentes, claro) a fim de esclarecer determinadas questões.

A sociedade não está cercada de verdades absolutas, tampouco existem apenas opiniões unânimes, logo o conflito é necessário e é dele que nascem todas as modificações que ocorrem em todas as escalas, desde as sociais até as pessoais. Questionar é um direito tao calado que vem sendo esquecido, e é preciso ter cuidado, tanto que me dá preguiça, “melhor deixar pra lá!”…

Então vamos aprender: discordar não é desrespeitar ninguém, nem tampouco querer comprar uma briga, pelo simples direito que cada um tem de ter suas próprias convicções. Grata!

O Perigo da História Única

Essa semana, numa aula da faculdade, fomos apresentados a esse vídeo de uma palestra incrível da escritora africana Chimamanda Adichie, que trata sobre o que ela gosta de chamar de história única. Concordo com uma afirmação feita logo no início do vídeo em que a history teller diz o quanto somos vulneráveis frente ao que ouvimos, e não questionamos que possam existir diferentes  histórias para um mesmo assunto, basta mudar a forma como contamos e por onde escolhemos começar.

Quantas histórias únicas nós temos? E se contássemos a história do nosso país pelos olhos dos índios e não dos portugueses que nos colonizaram? “O problema dos estereótipos não é que eles são errados, mas são incompletos.” diz Chimamanda em sua palestra. A história final acaba sempre contada por aqueles que têm mais poder e acabam assim se tornando a identidade definitiva de um povo, o limitando, restringindo-o, fazendo com que este perca sua dignidade e se despersonifique. É o que acontece por exemplo com o Brasil: somos o país das mulheres bonitas, do Carnaval, do samba, da violência e do futebol. Até parece que não somos nada além disso. Ainda temos (ou tivemos) bons escritores, músicos incríveis que tocam MPB, rock, pop, jazz, música experimental, temos boas peças de teatro, boas universidades, gente rica, pobre, boa e má, honestidade e corrupção. Somos tantas coisas e lá fora somos barrados nos aeroportos por carregarmos esse estigma gerado por todas essas diferentes versões de uma mesma história única que há muito é contada sobre nós. O estigma de existirem aqueles que são mais e melhores, e os que são menos e inferiores, é o mesmo adotado por Hitler para justificar seu ódio para com os judeus, por exemplo, e diariamente por todos aqueles que se sentem do direito de oprimir e subjulgar pessoas, povos e culturas, simplesmente por elas terem crenças e culturas diferentes.

Depois de tudo isso ser dito, penso que precisamos renovar o senso-crítico que possuímos enquanto povo brasileiro, e resgatar a educação e alguns valores para essa geração que fazemos parte e as posteriores. Esse é um momento muito particular do nosso país, em que crescemos financeiramente como nunca antes, mas culturalmente falando, permanecemos estagnados no tempo, com uma educação que deixa muito a desejar e nos impede de prosseguir e moldar uma nova identidade. É preciso educar para formar os tipos de homens e mulheres que queremos. Além disso, perceber o quanto é necessária essa mudança, também faz com que nós tentemos olhar o mundo não mais sobre a perspectiva da diferença, mas sim da semelhança. E se contássemos outras histórias que não as que estamos acostumados a ouvir sobre os pobres, os ricos, a escola, os nordestinos, os homossexuais, os árabes, muçulmanos? O que eles tem em comum conosco, o que a mídia e a sociedade escondem sobre esses grupos? O que está por trás do que assistimos na televisão e lemos nos jornais? É importante resgatar esse tipo de senso-crítico, para que possamos andar para frente, ver que existem outras culturas além das muitas existentes no nosso “mundinho” ocidental. Qual é a sua história única?  Conte para nós nos comentários!

Deixo vocês agora com as duas partes do vídeo da palestra de Chimamanda Adichie:

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[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=SZuJ5O0p1Nc&feature=related]

Recomendo: A Invasão Cultural Norte-Americana – Júlia Falivene Alves

Educação: um problema de todos.

Quando pensamos em educação, automaticamente imaginamos escolas, professores, alunos, porém a educação vai além disso, estando presente fora do ambiente escolar e de maneira informal, o que inclui difusão de cultura, de valores sociais como certo e errado, padrões de conduta, e acaba formando tipos de homens e mulheres que variam de acordo com sua época, região e características da sociedade em que estão inseridos. Isso significa dizer que a educação, em suas diversas formas, é que constitui cidadãos que irão perpetuar sua cultura, seus valores, e os preparar para exercer plenamente a função de cidadãos. Educação constitui a base de um ciclo que envolve cidadania, cultura, democracia e liberdade. Sem ela não é possível a construção de um Estado democrático onde os cidadãos tenham discernimento para julgar os governantes e suas propostas e assim, garantir que a sua vontade seja efetivada. E que esses cidadãos possam analisar fatos, propostas, polêmicas, sem interferência da mídia, de valores religiosos e, dessa forma, possam agir a favor do bem comum e não tão somente de interesses pessoais.

Entretanto sabemos que a educação no nosso país rasteja em estado de calamidade pública, deixando de formar pessoas com o mínimo de conhecimento e capacidade de julgamento necessários para que possam desempenhar seu papel social de forma coerente.Não vejo outro meio de narrar a educação das escolas públicas como conhecimento empilhado e que torna massante o aprendizado ao aluno. Isso faz com que não tenhamos uma cultura que fuja do padrão Globo de televisão, e as pessoas não questionem sua realidade. Pessoas céticas como eu, você e muitos que não acreditam que mudanças possam ser feitas. Sem educação nos falta também uma série de outros direitos como segurança, transporte, saúde, moradia de qualidade, e que, uma minoria se revolta e cobra posições do governo e dos órgãos competentes, enquanto a maioria permanece na inércia do ceticismo acreditando que mudanças serão impossíveis. Ter uma massa questionadora é o princípio básico para o início de qualquer sociedade democrática e livre, e nosso país está muito longe de alcançar isso.

Me vejo também muito cética em relação a mudanças sociais no Brasil, mas no fundo ainda acredito que através da educação e de fortes meios de conscientização mudanças possam começar. E percebo isso observando que pouca gente tem consciência de que um problema grave como na educação do nosso país afeta a todos, desde o cara que pertence a uma classe social mais elevada e tem medo de sair na rua e ser vítima de um assalto, ao que faz parte da classe média, sustenta os ricos e sofre com a falta de estrutura das cidades, e ao cara que é pobre e não tem meios de mudar sua condição social, dando uma demonstração o mais clichê possível. Pensar educação vai além se percebermos quem são os cidadão e tipos de pessoas que estamos formando, quem serão os profissionais que nos atenderão daqui a 10 anos, quem dará continuidade aos progressos que a humanidade conseguiu até então, irá propagar nossa cultura, se pecamos desde o mais básico. E, sinceramente, não vejo por onde começar as mudanças.

Penso que talvez parar de tratar das conseqüências sem dar prioridade a suas causas, leia-se: cortar o mal pela raíz, seja um bom começo, mas não depende só da minha pobre vontade solitária ([…] eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade. Paulo Freire). Sem a conscientização da sociedade para a importância da educação não é possível cobrar ações pública, e sem isso, nada se faz. Uma luta social deve partir da vontade da sociedade e não de fora dela para que seja real e séria. É um ciclo vicioso: sem educação não há conscientização, e sem conscientização não há educação, interpretando educação não só como o ensino formal, escolar.

Gosto de uma citação que o Nenê Altro fez em algum trecho do Manifesto Discórdia, onde diz que as pessoas lutam por seus próprios interesses e não pra que seja feita a caridade, um ponto que acho importantíssimo ressaltar. Precisamos pensar em educação e criar meios de reverter a vergonha que ela é em nosso país para o nosso bem, e é acreditando nisso que vou todos os dias para a faculdade buscando meios de mudar alguma coisa, talvez para mim mesma, dado que há muito percebi que viver para tentar agradar os outros não funciona… Vou encerrar com uma frase do Paulo Freire, mais uma vez, que é minha recomendação de leitura do post de hoje e que mesmo tendo sido escrita há algumas décadas, permanece atual: A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tam pouco a sociedade muda.