#Resenha: Amor Amargo – Jennifer Brown

Jennifer Brown é uma escritora estadunidense, formada em psicologia e especialista em psicologia da mulher, que fez bastante sucesso aqui no Brasil – e em outros cantos do mundo, é claro – com o livro A Lista Negra,  história sobre uma garota, a Valerie Leftman, que sofre bullying no colégio e tem sua vida posta de cabeça para baixo quando seu namorado decide ir armado para a escola e mata várias pessoas. Em Amor Amargo, Jennifer Brown também aborda um tema superdelicado: relacionamentos abusivos. O livro é um New Adult recheado de drama.

Alex, a protagonista, é uma garota órfã de mãe que está no último ano do ensino médio e planeja uma viagem para o Colorado com seus dois melhores amigos. A viagem é muito importante pois Alex sente que precisa ir até o Colorado e descobrir porque o local era tão espacial para sua mãe, que morreu tragicamente quando ia para lá. No entanto, quando a coisa mais importante de sua vida era a tal viagem, ela conhece Cole, um garoto lindo, esportista e aparentemente incrível, que irá conquistar totalmente seu coração. E coisas surpreendentes irão acontecer.

Ao abordar o tema dos relacionamentos abusivos, o livro acaba com tudo o que pensamos a respeito do assunto. É muito comum dizermos que nunca passaríamos por um relacionamento destrutivo porque “se fosse comigo, eu daria um basta no primeiro tapa”, “se a mulher permanece no relacionamento após a primeira agressão é porque gosta”. E ao ler esse livro, esse pensamento simplesmente some da nossa cabeça. Percebemos que aquela situação poderia acontecer com qualquer pessoa, inclusive com nós.

A autora tem um jeito especial de escrever: sabemos que a história não irá terminar bem, e mesmo assim lemos até o fim para ver o desenrolar dos fatos. Não é um livro surpreendente e, no caso específico desse livro, esse não é um ponto negativo. É como se estivéssemos acompanhando de fora uma história que sabemos como termina, apenas querendo entender os porquês.  O livro vai ficando cada vez mais emocionante e você não consegue desgrudar os olhos das páginas. Amor Amargo vai te levar ao limite das suas emoções!

No final do livro há um anexo no qual a autora conta sobre seu processo de escrita e a respeito da pesquisa que fez sobre os relacionamentos abusivos. Será que você sabe como identificar quais os tipos de relacionamentos abusivos e os sinais de que você ou alguém próximo está passando por essa situação? Veja o infográfico abaixo:

 

Recomendo: Veias Abertas da América Latina

Eduardo Galeano tem sido sinônimo de gênio para mim desde que comecei a ler Veias Abertas da América Latina. É um livro imprescindível, deveria ser obrigatório nas escolas e pra qualquer pessoa que deseja conhecer mais a fundo a história de seu país e continente e entender de quais maneiras a colonização invasão europeia influencia nossa cultura, nossa organização social e os problemas que nos impactam atualmente.

O livro é interessante, nos mostra uma perspectiva histórica que não aprendemos com os livros da escola. Temos uma visão muito mais clara e menos romântica ao ler as constatações do autor, que, ao contrário de autores didáticos, não maquia as opressões pelas quais passaram os nativos habitantes da América, os negros, as mulheres e as classes oprimidas pelo capitalismo em suas diversas fases. Por vezes, as palavras irônicas e duras do autor doem como um tapa na cara.

O autor nasceu em Montevidéu nos anos 40, se tornando um dos grandes jornalistas e escritores do Uruguai. Foi perseguido pela ditadura militar em seu país e foi obrigado a se exilar na Argentina e Espanha, tendo sido incluso na lista do esquadrão da morte e caçado por seus ideais socialistas e revolucionários. Escreveu em 1971 sua mais conhecida obra, Veias Abertas da América Latina e esta parece atemporal, nos fazendo entender melhor tempos de protestos, de mídias compradas e sujas, de governos que fazem desapropriações e matam moradores das favelas.

Para desvendar os mistérios da extração do ouro e das misérias.

Livro disponível em PDF.

E aí, já pensou em escrever um livro?

Não sei se é tão comum entre os meus leitores, mas tenho vários amigos que adoram escrever contos e romances, e já até pensaram em sair do anonimato publicando suas estórias! De passatempo e hobby, escrever “profissionalmente” se tornou uma das minhas possibilidades de futuro e estou aqui hoje para compartilhar algumas dicas muito valiosas para quem escreve ou pensa em escrever romances!

A escritora Lycia Barros (site aqui) criou um canal de vídeos no youtube e dá dicas interessantíssimas para quem deseja escrever romances e livros de forma em geral. Como se livrar do bloqueio criativo, quais são erros mais comuns dos autores iniciantes, como escrever uma boa sinopse, como começar a escrever, como amarrar bem a história e não se perder durante o processo de criação do seu livro, ela ensina todas essas coisas e a gente termina os vídeos com aquela vontade de escrever retirada da gaveta! Quem se interessa e quer ir mais a fundo nos estudos, deseja aprimorar a técnica, ainda pode participar dos cursos que ela ministra presencialmente, ou optar por aulas particulares via skype!

No site, você pode ler algumas páginas dos livros que ela publicou, vale a pena! Conheci hoje e já fiquei com vontade de ler “A garota do outro lado da rua”. Assim que eu comprar e terminar minha leitura, conto aqui o que achei! Fica aí um vídeo com algumas dicas!

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Dica de Livro do Dia #10 – Convite à Filosofia, de Marilena Chauí

A dica de hoje é um livro de uma das grandes filosofas e historiadoras do Brasil, Marilena Chauí. Durante todo o meu Ens. Médio senti que os professores de Filosofia pecavam em muitos aspectos, levando a maioria dos alunos ao desinteresse pela matéria. Apesar de fazer parte daquilo que as pessoas consideram pouco importante, acredito que a Filosofia tem um papel muito importante na formação das pessoas e é por isso que recomendo muito esse livro. Estou na metade e não consigo parar de grifar frases e anotar algumas definições.

Marilena Chauí, além de escritora, é professora da FFLCH – USP, escreveu diversos outros títulos e recebeu, em 1994, o Prêmio Jabuti por ‘Convite à Filosofia’. É apenas mais um prêmio dentre tantos.

Sinopse: Um exercício do pensamento, que fomenta a reflexão crítica e lança um facho de luz sobre questões do dia-a-dia, realçando seu caráter histórico e ampliando os horizontes do leitor – eis o alcance deste livro. Convite à Filosofia é uma obra que utiliza o próprio instrumental filosófico para atualizar conceitos e fazer uma releitura dialética do mundo por uma das mais consistentes intelectuais do país. De suas páginas emergem os grandes temas da discussão filosófica, como Razão, Verdade, Conhecimento, Ciência, Ética, Política, Arte, Técnica, Religião, Metafísica, História, Lógica. 

"Todo dia alguém bate à nossa porta e nos convida a desistir."

Sobre o título, não sei porque o escolhi, talvez seja porque tudo que o Caio Fernando Abreu escreve me agrada, mesmo não me trazendo nenhum sentido específico no momento.  E falando nele, tenho redescoberto o prazer em alguns gostos antigos, que eu acho até que já havia me esquecido, como o sabor incomparável de uma tarde de domingo ao som de um bom CD, deitada na minha cama com mil almofadas, um cobertor para esquentar os pés e um livro para invadir a mente de fantasias, reflexões, descobertas, humor, ou um pouco de tudo isso junto, sem pensar em mais nada.

Novos horizontes fazem bem, mesmo que estes estejam só nas linhas de um bom livro. Caio Fernando mesmo já dizia: “Às vezes a gente vai-se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é.”

Ler para Ser: Desligue a televisão, saia da internet e vá ler um livro!

Eles começaram como tabuletas de argila ou pedra, posteriormente substituídas por cilindros de papiro e, depois, por pergaminhos. Meio de codificar leis, registrar dogmas e crenças religiosas, difundir costumes e informações, além servirem como documentos históricos, os livros são a maior invenção da humanidade. Imaginem o que seriamos sem os livros? Certamente nossa sociedade seria organizada de uma maneira totalmente  diferente, e provavelmente muito mais desorganizada também. Se antes os livros eram acessíveis apenas àqueles que constituíam a nobreza e as classes mais favorecidas, e logo, alfabetizadas, hoje, graças ao surgimento da imprensa e da tipografia na Idade Moderna, os livros deixaram de se restringir às minorias e garantiram sua importância. O desenvolvimento de todas essas tecnologias, mais do que documentar ou organizar a sociedade, possibilitou às pessoas o acesso ao aprendizado e à cultura, sem os quais estaríamos estagnados.

Gosto de uma citação de Monteiro Lobato que diz: “Um país se faz com homens e livros.”, e ainda acrescentaria dizendo que um país se faz com crianças e seus livros.Não é preciso muito raciocínio para notar que a leitura constitui um hábito que nós brasileiros não temos e não passamos para nossas crianças. A média de livros lidos pelos brasileiros por ano é de 4,7, segundo o Ibope, enquanto o europeu lê em média 8 livros por ano per capita. É mais fácil assistir à novela e ao analisar os problemas que nosso país enfrenta, percebemos o quanto esse desapego para com a educação e a formação intelectual dos nossos cidadãos é prejudicial.

Desde sempre os livros estiveram presentes no meu cotidiano, fosse em casa ou na escola. Sempre fui daquelas crianças que faziam birra no shopping pra “arrancar” livros dos pais ao invés de bonecas e percebo o quão bom isso foi para minha formação. Todo ano compro dezenas de livros que vou acumulando, lendo, emprestando, esquecendo, doando, perdendo as contas… Ler para aprender, ler para pensar, imaginar, rir, chorar, indignar-se, descobrir, mudar, trocar ou reforçar opiniões. Ler no ônibus, na fila do banco, no trânsito, antes de dormir, carregar um livro na bolsa e ler por pura distração esperando um amigo atrasado chegar ao local marcado, na sala de espera do dentista. Ler para ser cidadão! Quem não lê dificilmente consegue desenvolver um bom papo, ter opiniões embasadas, se colocar numa discussão, fazer uma boa crítica e ora, essas são ações muito básicas no cenário em que estamos inseridos. E fico indagando se ter um país com mais leitores, com pessoas mais conscientes e críticas não passa de uma grande utopia; questiono se algum dia a educação vai finalmente abandonar o patamar de “escada para o sucesso” e o status social e aí sim as pessoas irão estudar, ler livros, nem que sejam best-sellers que facilmente virariam uma novela global, não mais por obrigação.

Vou finalizar com um conto a carater, da Clarice Lispector:

 

FELICIDADE CLANDESTINA

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio
arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos
achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do
busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias
gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de
pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal
da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde
morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra
bordadíssima palavras como "data natalícia” e “saudade” .
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança,
chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que
éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.
Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler,
eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorarlhe
emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma
tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de
Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com
ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses.
Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o
emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu
não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me
traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava
num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando
bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina,
e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas
em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a
andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife.
Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias
seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me
esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de
livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua
casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro
ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu
como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se
repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo
indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já
começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho.
Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer
esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às
vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio
de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a
olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e
silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a
aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a
nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco
elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar
entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com
enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você
nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia
ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a
potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à
porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se
refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora
mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser."
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é
tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro
na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando
como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com
as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar
em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração
pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para
depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas
maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo
comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o,
abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela
coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina
para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia
orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo,
sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu
amante.