Dia da Mulher: "Igualdade a gente conversa quando for de verdade".

O Dia Internacional da Mulher teve início em 8 de março de 1917 na Rússia, com greves feitas por operárias das grandes fábricas têxteis contra as más condições de trabalho, a fome, contra o czar Nicolau II e contra a participação do país na Primeira Guerra Mundial,  tendo sido o estopim para o início da Revolução Russa de 1917. Na Europa e nos EUA, porém, a ideia de criar um dia internacional para a mulher já era mais antiga, e além das reivindicações soviéticas, tinha também intenção de lutar pelo direito ao voto, pelo fim dos casamentos arranjados e a propriedade que os maridos tinham sobre suas esposas.

Depois de ficar por muito tempo esquecida, foi em 1960, com o nascimento do movimento feminista, ou segunda onda do movimento feminista, que a data passou a ser lembrada e adquiriu maior importância, ganhando um sentido mais político na luta contra a  desigualdade e o fim da discriminação. Um marco também importante  para o movimento feminista, foi a obra da escritora e filosofa francesa Simone de Beauvoir, chamada O Segundo Sexo, de 1949. Tendo dois volumes “Fatos e Mitos” e “A experiência vivida”, O Segundo Sexo defende a teoria existencialista de Sartre que diz “A existência precede a essência”, ou seja, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Para isso, Simone de Beauvoir argumenta que as mulheres sempre receberam uma educação e um tratamento de inferioridade em relação aos homens: “A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro.”, e que para reverter esse fato, a mulher deveria deixar de ter no homem o seu modelo e aspiração.

Posteriormente a todos esses fatos importantes que trouxeram diversas conquistas para as mulheres e fizeram com que o dia 8 de março tivesse uma grande importância histórica e social, o Dia Internacional da Mulher adquiriu um caráter completamente festivo e comercial, em detrimento das lutas sociais e discussões que ainda precisam ser feitas em relação aos direitos da mulher e sua função na sociedade moderna.

Apesar de todas as conquistas, ainda vivemos numa sociedade machista e patriarcal, onde paradoxalmente a mulher vem ganhando destaque em seu trabalho e carreira, mas ainda que desempenhe a mesma função de homens, recebe menos que eles e, em casa, sofre um acúmulo de tarefas. Além disso, o Brasil está entre os 25 países que mais assassinam mulheres, e isso significa que 66 mil são assassinadas a cada ano, sendo 17% vítimas de homicídios intencionais, e nisso podemos incluir violência doméstica e estupro. São números que chocam não só pelos fatos que revelam, mas por fazer perceber que ainda estamos muito longe de reverter a situação a favor de um país mais igualitário, onde as mulheres não tenham que vestir burca para serem respeitadas e muito menos serem tratadas como propriedade dos homens a ponto de serem violentadas. E principalmente um país onde as mesmas tenham informação, para que dessa forma, possam entender, cuidar e decidir sobre seu próprio corpo.

Discutir soluções para esses problemas é muito mais importante do que qualquer “parabéns” que possa ser dado a uma mulher. Para demonstrar isso, em protesto às comemorações do dia 8 de março, a cantora Karina Buhr, ao lado de Naná Rizzini,  Mariah Teixeira, Marina Gasolina e do músico Adriano Cintra, resolveu lançar uma campanha de forma muito bem humorada na internet. A ideia era gerar questionamentos e fazer pensar sobre o machismo e a hipocrisia em torno dessa data, e para isso, os músicos aparecem de topless num ensaio com textos provocantes: “Seu amigo fica sem blusa e você não”, “Tem vergonha de farol aceso na rua”, entre outras. Em entrevista à Revista TPM, Karina Buhr afirmou que o protesto era uma forma de “Lembrar, relembrar e frisar sempre que isso de igualdade entre homens e mulheres ainda tá bem longe de acontecer. Que o Brasil é um país muito machista (os homens e as mulheres), que tem um discurso lindo a respeito da burca alheia, mas não olha pro próprio pé. E mostrar que mulher não precisa ter vergonha do corpo, de se esconder o tempo todo pra evitar piadas escrotas e violência. E, afinal, se um amigo seu pode tirar a blusa, você não poderia por que?”.

Outra iniciativa importante e bastante engraçada foi a Marcha das Vadias, onde mulheres saíram às ruas de vários países, inclusive em passeata na Avenida Paulista, com roupas provocantes em forma de se opor à afirmação de um policial que afirmou durante uma palestra em Toronto, no Canadá, que as mulheres deveriam parar de usar roupas de vadias para evitar estupros. Ficam as dicas e a reflexão. Mais do que poemas e flores, precisamos de discussões e conscientização para celebrar o Dia Internacional da Mulher e isso não precisa ser necessariamente feito de uma maneira chata e massante. 

Dicas relacionadas:

Texto sobre o aborto e a assistência às mães, de Juana Diniz, aqui.

Ensaio de Karina Buhr, aqui.

Fotos da Marcha das Vadias em SP, aqui.

E para fechar, Desconstruindo Amélia.

Segundo Pitty, a música surgiu da ideia de investigar e entender “como seria a Amélia do século XXI ? Depois de queimar o sutiã , obter direito ao voto e passar a exercer cargos de comando em poderosas empresas, como sentem-se hoje as mulheres? Aliviadas por terem mais autonomia ou sobrecarregadas porque além dos afazeres domésticos acumulam a função de sustentar uma casa? Pesquisei , e não pude deixar de (re) ler O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir; obra esta que me ajudou a clarear os pensamentos e a trazer para a música a  seguinte frase: “Já não quer ser o Outro, hoje ela é Um também.”  A Amélia de Ataulfo e Mario Lago mudou. Aquela que “era mulher de verdade e que não tinha a menor vaidade” hoje se desdobra entre a delicadeza de saber preparar uma refeição e a garra de acordar cedo pra ir trabalhar e tomar decisões. E, claro, se por acaso der pra fazer as unhas no intervalo do almoço, melhor ainda.”

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=OVF-EhZ-QhE]