Bates Motel

Acordou naquela manhã com o céu ainda nublado invadindo o quarto. Tudo era impessoal, mas, ao mesmo tempo, parecia tão familiar que ela sentia que era parte de tudo aquilo.

Quando abriu os olhos o viu ainda dormindo e reparou que as mãos dele a prendiam, de forma que se mexendo o acordaria também. Ficou o observando. Aquele homem estranho e sua barba, e seus traços que faziam uma bela combinação entre si, mas que ela não sabia se eram bonitos em si. Ela acariciou aquele rosto, passou a mão naqueles lábios, ajeitou aquele cabelo.

“Se existem duas coisas que eu não gosto posso apostar que são galãs e gente dentro da caixinha!”, pensou.

Ele não era galã e muito menos dentro da caixinha. Era humano e imperfeito, não aquele estereótipo de gente feliz e descomplicada. Era cheio das idiossincrasias que ela gostava de achar graça observando a si mesma. Ela também gostava de observar suas roupas e a forma como mesmo engomadinho ele se destacava da multidão de engomadinhos. E exercia uma espécie de fascínio sobre aquele cara estranho, de feição séria, que convencia a todos menos a ela. Adorava ele almofadinha e ele perdendo a cabeça e abrindo o coração.

Se aninhou com ele na cama e mesmo seus movimentos mais singelos o acordaram. Se abraçaram e ela gostava daquele abraço como gostava de nenhum outro lugar no mundo. Cada toque dele tocava também a alma. Não era sexo, era ópio. Lícito, mas ainda assim, ópio.

Voltaram a dormir os dois. Ela mais sã e certa do que nunca e ele… Bom, ele era ele.

 

Sobre desconstruir e se lembrar direito

Defini que esse seria o Novembro do desapego. Mês de Finados, por que não também o mês de enterrar tudo aquilo que não mais acrescenta? Finalmente arrumei os armários, me desfiz de uma porção de roupas que apenas ocupavam espaço, reorganizei prateleiras, excluí pastas e arquivos do computador, joguei fora diários com confissões antigas, cartas de ex-namorados, minha coleção de esmaltes vencidos e na hora de me livrar de você, percebi que ainda te queria.

Queria com todas suas incongruências, com seus defeitos, com suas manias, seu olhar, sua risada estranha, seu cheiro, seu toque, sua pele. E me arrependi absurdamente quando limpei a lixeira do meu notebook com as nossas fotos. Passei horas me perguntando se você ainda as mantém guardadas em algum lugar e se olha para elas sorrindo. Ouvi todas as músicas animadas que aguentei, mas repousei nas tristes. Cantei declarações de amor que nunca fiz, pensando que eu podia dar um jeito de aparecer na sua porta enrolada numa toalha e te amarrar na cama, de um jeito selvagem porém ainda com algum humor, pra nos transformar em paixão, em loucura, suor e suspiros.

E nós fomos isso, não fomos? Ainda que tenhamos sido apenas uma pequena epifania ou uma grande inconsequência? Porque você não me olha nos olhos e diz que signifiquei pra você? Ou me olha nos olhos pra simplesmente dizer que eu sou uma maluca, que idealizo demais, que levo tudo muito a sério, que você não suporta minhas esquisitices, que odeia uma porção de coisas em mim e que te fiz mais mal do que qualquer bem?

Fiquei pensando no seu silêncio incômodo, na chance que você me deu de criar mil hipóteses a ponto de eu nem saber mais o que é mentira ou verdade entre nós. Repeti os conselhos clichês que sempre ouvi dos amigos pra colocar de uma vez por todas na cabeça que você nunca se importou de fato. Que me faltava reviver nossos momentos com outros olhos, enxergar os fatos como foram e não como eu gostaria que tivessem sido. Que tudo nunca passou de um teatro ensaiado, de uma diversão sádica pra satisfazer a sua síndrome de Napoleão, sua necessidade por massagem no ego.

E esse texto é sobre não gostar de quem se gosta. É sobre achar que nunca vou me acostumar a nunca poder confiar. É sobre traições que vão além da carne. É sobre sentir-me tola por ainda acreditar no poder da sinceridade, das coisas que fazemos por paixão e verdade, por ainda falar em honra e caráter. É sobre finais e recomeços, sobre nunca aceitar menos do que se merece. “Abrir os olhos era o que bastava. O coração mente e a cabeça usa truques conosco, mas os olhos veem a verdade.”.

Um brinde aos sincericídas

Luiz Fernando Guimarães interpretou para a televisão o “Super Sincero”.  Na série, o personagem faz rir dizendo o que todos nós pensamos, porém não temos coragem de dizer, sendo, assim, taxado de grosso. “Se você mente, então é chamado de mentiroso. Agora se você é sincero e fala a verdade, dizem que você é grosso”, afirma. O personagem é aquilo que eu costumo chamar de “sincericída”.

Há tempos penso no limite para a sinceridade, sempre fico com o meio termo. Obviamente existem as mentirinhas do bem, aquelas que usamos para não causar climas inconvenientes, e que não fazem nenhum grande mal a ninguém. Mentir que está tudo bem, quando você não quer falar por que motivo tudo anda mal. Dar um sorriso ao chefe para não atirá-lo escadaria abaixo, e manter o emprego do qual você necessita. Se calar no calor de uma briga e não falar tudo o que vem à cabeça para evitar o arrependimento depois. Viver sem essas pequenas fugas é inevitável, mas o tema de hoje nesse blog é o papo furado.

Imaginem o mundo se as pessoas dessem menos voltas para chegarem aonde querem. Talvez você tomasse um susto, claro, com alguém te dando uma má notícia sem se cercar de alguns eufemismos, mas talvez você agradecesse por aquele aprendiz de cafajeste não te iludir pra te levar para a cama. Talvez o tal do cara também fosse chamado de pervertido por algumas, mas aposto que economizando o tempo de ludibriar moças para conseguir algo mais, o resultado seria mais sexo em menos tempo. E a melhor parte? Você ter a chance de evitar se apaixonar pela ideia de um sujeito maravilhoso que vai deixar de existir após a segunda manhã de sexo, e ele ainda reduz as chances de ser chamado de canalha por alguma desavisada.

Um pouco mais de sinceridade talvez te trouxesse menos amigos, mas com toda certeza te livraria daquele colega chato que adora desperdiçar seu tempo contando vantagens e falando de assuntos que pouco te interessam. O fato é que ninguém merece papo furado. Papo furado do namorado, do amante, do ficante, do amigo, do político, do chefe, do advogado, do réu, da consciência.

A sinceridade não é apenas uma relação entre nós e os outros. É, primordialmente, uma relação entre nós e nós mesmos. Sinceridade é agirmos com a nossa alma, ainda que isso nos leve a agir de outro modo que não aquele que esperam de nós. Ser sincero consigo é eliminar pesos, é se afastar de pessoas e atitudes que não nos levam além, é deixar de acreditar nas mentiras que contamos a nós mesmos.

Um brinde aos sincericídas! A praticidade de um sincero pode te assustar, mas pelo menos te livra do blá blá blá.

Sobre acreditar em Deus e acordar sem olheiras

Se eu acreditasse em Deus, todas as noites antes de dormir eu pediria: “Senhor, me livre de toda cagação de regra! Amém!” e então adormeceria o sono dos justos. Mas, como eu não acredito, antes de dormir tento pensar em pelo menos meia dúzia de coisas impossíveis se tornando realidade.

Imaginem, senhores, que agradável seria o mundo se as pessoas utilizassem o bom senso. Que incrível seria se desejassem “bom dia”, “boa noite”, “obrigado”, se dissessem “por gentileza”, “com licença” e pedissem desculpas. Imaginem que paz teriam nossos narizes se tomassem banho antes de dividir os espaços públicos, não exagerassem nos perfumes, se cada um cuidasse do seu próprio hálito. Imaginem como viveríamos menos estressados se todos tratassem bem o telemarketing, se o carro da frente desse seta, se os fones de ouvido fossem regra e não exceção nos ônibus, se não invadissem o espaço e a privacidade alheios, se não necessitássemos de tanta urgência.

Imaginem quantas conversas agradáveis e edificantes teríamos se todos assistem menos televisão, lessem menos Veja e comprassem mais livros. Imaginem todos preocupados com suas vidas e, por isso, julgando menos, se respeitando mais, não se matando por tudo ou nada.

Imaginem que bacana poder sair na rua à qualquer hora do dia ou da noite sem temer um assalto. Imaginem mulheres podendo usar roupas curtas no verão sem receber cantadas baixas, buzinadas de carros, andando sozinhas à noite sem temer que qualquer olhar de um estranho acabe em um estupro.

Imaginem podermos fazer nossas escolhas sem ter que ouvir a opinião do Papa ou do Silas Malafaia. Imaginem a comida gostosa na festa de casamento daquele casal gay que há anos planeja juntar as escovas de dentes e assinar os papeis. Os transexuais sendo tratados como gente, sendo chamados por seu nome social. Imaginem gordos e magros, altos e baixos, bonitos e feios sendo tratados com o mesmo valor, dignidade e respeito. Imaginem os negros e os pobres não sendo criminalizados e mortos por suas origens. A periferia descansando ao menos uma noite em paz.

Imaginem os sistemas operacionais funcionando. As filas andando. O trânsito fluindo. A nossa paciência sendo economizada.

Pois é, senhores. Eu dormiria mais rápido se acreditasse em Deus.

Destinatário e remetente

Um dos meus maiores desejos sempre foi ter o poder de transformar em sentimentos bons todas as mágoas e dores dentro de mim. Eu sempre quis desenvol ver meu desapego, não desperdiçar minhas energias cultivando raiva e desamores. Eu sempre quis confiar no destino, confiar no tempo, nas linhas tortas por onde caminho. Secretamente sempre acreditei que pessoas entram e saem de nossas vidas por algum motivo. Mística.

Eu sempre quis acreditar que o que tiver que ser, será. Que talvez não seja agora e nem nunca mais. Mas que talvez seja amanhã ou depois, numa esquina, num esbarrão, seus papéis caindo, eu me desculpando, nossos olhares se cruzando, a conversa surgindo e o tempo se arrastando até que um de nós tenha que partir e a gente tenha vontade de reviver o que deixamos para trás. Utópica. Romântica. Sonhadora.

Pessoas passam por nós e nos deixam marcas, fazem trocas, deixam manias, lições, reflexões, saudades, cheiros, memórias. Depois se vão, mudam a escala de importância que ocupam em nossos dias, saem do foco de nossas prioridades e nos deixam alguma sensação de perda. O tempo encarrega-se de gerar o balanço do que foi bom ou ruim, de reorganizar os espaços, de preencher os silêncios, de resgatar os sentidos.

É o amor buscando se livrar do ódio para virar amizade ou transformar-se em indiferença.  É a amizade tentando se livrar do amor pra voltar a ser somente amizade. É o rancor sendo obrigado pelo tempo a se dissolver nas alegrias. É a amizade tirando o espaço da mágoa para crescer mais forte. É o tempo separando o joio do trigo, nos mostrando os reais anseios, subtraindo as expectativas e colocando no lugar as verdades sentidas. O vento apagando e reacendo o que for para ficar.

"Medo que dá medo do medo que dá…"

Renato Russo colocou em palavras uma realidade do meu cotidiano: “Todos os dias antes de dormir, paro e penso como foi o dia.”. É nesse momento que penso nas minhas tantas incertezas, em minhas certezas tão mutáveis e pego no sono tentando responder as retóricas em minha cabeça. São tantas contradições e paradoxos, tantos medos e tantos atos de coragem, tantas cobranças e tanto descompromisso, que me faltam estruturas para organizar tudo em pensamentos coerentes. A coerência me foge o tempo inteiro.

Eu tentei ser coerente com as minhas escolhas, ser coerente nos meus amores, com a minha escrita, mas descobri que meu maior compromisso é com a vida. É ela que eu quero valorizar, é sobre ela que não quero ter a sensação de que deixei para trás. Eu posso carregar o peso de saber que fui incoerente e contraditória, mas não o peso de que fiz da vida algo que não gostaria. Eu aguentaria a culpa por magoar qualquer pessoa, menos o fracasso declarado por mim mesma me dominando a cabeça. Eu aguentaria me contradizer dia após dia em todas as crônicas e pensamentos que publiquei, mas não o peso de permanecer presa a uma ideia que não sou eu.

Vivo com essa necessidade constante de saber cada dia mais quem eu sou e o sentido de estar presa nesse universo, com a jocosidade de ser alguém entre outras bilhões de pessoas. Vivo achando que devo fazer algo de muito útil, de muito extraordinário, de muito inovador. Vivo pensando que talvez eu precise de respostas para as perguntas que ninguém faz, precise enxergar por ângulos que ninguém olha.

Afinal, “será que não temos tempo a perder” ou “temos todo o tempo do mundo”?, qual é o limite que separa a nossa coragem da covardia?.

E sei é que preciso aproveitar melhor o meu tempo, é que minha vida precisa parar de existir apenas depois que saio do trabalho e cumpro minhas obrigações. Minha vida deve começar no instante em que acordo e não ser vã no momento em que desligo. E sei que a coragem de viver minhas escolhas e colocar em prática as imagens que circulam em minha cabeça, não significam a ausência do medo. A ausência de medo é burrice. Negar o medo é negar a existência humana. Coragem talvez signifique que existem vontades, sentimentos, lugares a se conhecer, planos para concretizar, que são mais grandiosos que nossa gana por controle. Coragem é desapegar, ainda que doa. Coragem é se entregar, mesmo que sofra.  Coragem é saber que algo é maior que o nosso medo.

* Título faz parte de Medo, música de Lenine e Julieta Venegas.