Sobre desconstruir e se lembrar direito

Defini que esse seria o Novembro do desapego. Mês de Finados, por que não também o mês de enterrar tudo aquilo que não mais acrescenta? Finalmente arrumei os armários, me desfiz de uma porção de roupas que apenas ocupavam espaço, reorganizei prateleiras, excluí pastas e arquivos do computador, joguei fora diários com confissões antigas, cartas de ex-namorados, minha coleção de esmaltes vencidos e na hora de me livrar de você, percebi que ainda te queria.

Queria com todas suas incongruências, com seus defeitos, com suas manias, seu olhar, sua risada estranha, seu cheiro, seu toque, sua pele. E me arrependi absurdamente quando limpei a lixeira do meu notebook com as nossas fotos. Passei horas me perguntando se você ainda as mantém guardadas em algum lugar e se olha para elas sorrindo. Ouvi todas as músicas animadas que aguentei, mas repousei nas tristes. Cantei declarações de amor que nunca fiz, pensando que eu podia dar um jeito de aparecer na sua porta enrolada numa toalha e te amarrar na cama, de um jeito selvagem porém ainda com algum humor, pra nos transformar em paixão, em loucura, suor e suspiros.

E nós fomos isso, não fomos? Ainda que tenhamos sido apenas uma pequena epifania ou uma grande inconsequência? Porque você não me olha nos olhos e diz que signifiquei pra você? Ou me olha nos olhos pra simplesmente dizer que eu sou uma maluca, que idealizo demais, que levo tudo muito a sério, que você não suporta minhas esquisitices, que odeia uma porção de coisas em mim e que te fiz mais mal do que qualquer bem?

Fiquei pensando no seu silêncio incômodo, na chance que você me deu de criar mil hipóteses a ponto de eu nem saber mais o que é mentira ou verdade entre nós. Repeti os conselhos clichês que sempre ouvi dos amigos pra colocar de uma vez por todas na cabeça que você nunca se importou de fato. Que me faltava reviver nossos momentos com outros olhos, enxergar os fatos como foram e não como eu gostaria que tivessem sido. Que tudo nunca passou de um teatro ensaiado, de uma diversão sádica pra satisfazer a sua síndrome de Napoleão, sua necessidade por massagem no ego.

E esse texto é sobre não gostar de quem se gosta. É sobre achar que nunca vou me acostumar a nunca poder confiar. É sobre traições que vão além da carne. É sobre sentir-me tola por ainda acreditar no poder da sinceridade, das coisas que fazemos por paixão e verdade, por ainda falar em honra e caráter. É sobre finais e recomeços, sobre nunca aceitar menos do que se merece. “Abrir os olhos era o que bastava. O coração mente e a cabeça usa truques conosco, mas os olhos veem a verdade.”.