A arte de nunca ancorar…

Final de ano chegando e todos, inevitavelmente, começam a se fechar e fazer balanços de tudo de positivo e negativo que ocorreu no ano. É o momento em que  nos desprendermos de uma série de coisas e pessoas que, muito embora tenham  nos viabilizado uma porção de experiências e momentos incríveis, cumpriram seu papel e precisam ir embora. Um verdadeiro ciclo shivariano: coisas novas vêm ocupar o lugar das antigas num processo de renovação e desapego.

E é essa sensação de encerramento de mais um ciclo que venho tendo com o início das despedidas do Agridoce, que até o fim do ano não terá novas apresentações e deve retornar no início de 2013 para seus últimos shows – tudo muito incerto ainda.

Talvez o projeto paralelo tenha ganhado tanto destaque por ter gerado um dos discos mais belos e sinceros do último ano. Um disco para refletir sobre questões profundas, sem pressa – com aquela calma das conversas na sala de casa, acompanhadas de uma garrafa de vinho. Um álbum que é uma unidade viva com ritmo e essência próprios, que revela suas nuances, texturas, experimentações, ironias e entrelinhas ao longo do tempo.

O surgimento de possíveis novos trabalhos para Pitty, Martin e banda é animador para a maioria, mas traz um misto de felicidade e saudade antecipada aos que compreenderam e se identificaram com o projeto paralelo que revelou outros lados de uma mesma Pitty,  muito mais madura e ousada, capaz de se desvincular de cobranças externas  e se reinventar através de um disco acústico, mantendo sua essência. Quem prestou atenção sabe, está tudo ali: a mesma compositora, as mesmas inquietações, a mesma jocosidade e o espírito guerreiro, hedonista e “pé na porta” presentes desde sempre.

O Agridoce proporcionou a seus fãs o maior privilégio que poderia: a possibilidade de fazer com que alguns se apaixonassem a segunda vez pelos mesmos artistas. Uma conquista digna de românticos que, com verdade e honestidade, nutrem sua relação, cativando, apesar de alguns desentendimentos, a mesma pessoa diariamente.  O Agridoce me ganhou com a possibilidade de redescobrir a mesma compositora que ao escrever sobre si e seus anseios, indiretamente escreve sobre mim e tantos outros e me seduziu mostrando a extensão do talento de um guitarrista que tocando violão, fez com que incríveis composições ganhassem vida e fizessem ainda mais sentido.

Se o Agridoce se despede, ainda com a saudade, desejamos que Pitty continue mestre na arte de nunca ancorar.

Gente negra, parda, miscigenada e linda!

Recentemente, li uma pesquisa sobre o racismo muito entristecedora, que revelava o quanto o preconceito se manisfesta nas crianças. Segundo o estudo (que você pode ler clicando aqui), crianças negras e pardas são muito mais rejeitadas na escola do que seus colegas brancos, manifestando na adolescência problemas como a insegurança e a falta de auto-estima, traços que acabam se perpetuando pelo resto de suas vidas.

Os motivos dessa discriminação desde a infância são vários. Além de aprenderem observando o comportamento dos adultos e interiorizarem a rejeição àqueles que não fazem parte do seu convívio (no caso de crianças que não convivem com pessoas negras), as crianças desde sempre aprendem que o padrão de aceitação é o europeizado. Seus ídolos da música são garotos brancos da elite que falam de corações partidos, os heróis dos desenhos que passam na TV não são negros, mas as empregadas nas novelas quase sempre são. Na escola, essas crianças aprendem desde cedo qual é a sua posição no mundo, a de subalternos.

Embora não seja comum presenciar pessoas pregando o ódio, a perseguição, inferioridade contra algum negro, o nosso racismo existe e é um racismo velado; fomos ensinados a não admitir nossos preconceitos, a existência de desigualdades inadmissíveis e a presença de minorias, culpa daquela velha e tacanha lógica que nos faz acreditar que só há fogo quando há fumaça, que ao ignorar nossos problemas eles automaticamente deixarão de existir. O Brasil é um país racista e que acredita não ter racistas. O racista brasileiro é aquele que costuma fazer declarações dizendo “não tenho nada contra, mas… eu não gostaria que minha filha se casasse com um rapaz negro”, “nada contra, mas… tenho que confessar que a maioria dos negros pobres são bandidos”, isso quando não ri de piadinhas racistas que escuta por aí. “Está na moda ser politicamente incorreto, esse povo chato e metido a besta é que adora chamar os outros de reacionários!”.

O exemplo mais concreto disso é o nosso padrão de beleza eurocêntrico. Mesmo após mais da metade da população brasileira ser reconhecidamente negra, ainda acreditamos que a beleza de alguém é diretamente proporcional ao quanto se encaixa nos padrões eurocêntricos. A preferência nacional ainda é pelas loiras, mesmo entre os homens negros, assim como boa parte das mulheres negras prefere se relacionar com homens brancos.

O racismo está implícito e faz com que milhares de pessoas negras, pardas, miscigenadas e lindas cresçam achando que são inferiores. Nas famílias onde não há uma forte identidade negra para fazer nascer o orgulho pelas origens e a aceitação, os miscigenados se acham menos bonitos do que seus irmãos que nasceram um pouco mais branquinhos. As meninas crescem achando que têm cabelo ruim, e acabam fazendo com que seus cabelos fiquem ruins mesmo de tanta química para tentar alisá-los. Não que seja errado alguém que queira alisar os cabelos ou quem prefira pessoas com determinadas características físicas, mas não vamos tapar nossos olhos e tentar acreditar que boa parte dessas “preferências” interioriza inconscientemente um histórico de racismo.

Se para as mulheres existe essa cobrança para se adequarem cada vez mais aos padrões excludentes, os meninos também não escapam: estão acostumados a serem trocados por outros brancos ou loiros, que sempre têm muito mais mulheres dispostas a relacionamentos e amizade, e as meninas a quase sempre serem a segunda opção na disputa com uma amiga igualmente bonita, mas branca. Os meninos negros estão acostumados a serem revistados pela polícia, enquanto seus amigos brancos não levantam muitas suspeitas. O branco encontrado com maconha no bolso da calça é vagabundo, filhinho de papai e mimado, o negro é bandido, marginal.

Tento pensar que o Brasil está mudando. Todos os dias, ao menos em São Paulo, vejo mulheres lindas assumindo seus cabelos crespos ou cacheados e homens ganhando auto-estima e orgulho por sua cor e miscigenação. E sonho todos os dias em ver cada vez mais pessoas ignorando imposições absurdas e inatingíveis, e sendo felizes se aceitando como elas são. Bonitas ou não. Capas de revista ou não.