Afinal, o que é ser feminista?

Defender o feminismo se confunde o tempo todo com o ato de declarar uma guerra, afinal, como são chatas e extremistas essas feministas! Não entendem uma piada! Quem elas pensam que são para acharem que podem dar sua opinião sem serem questionadas? E compreendo a dificuldade que as pessoas têm de entender o feminismo porque não existe uma lista de atributos que enquadram ou excluem alguém do rótulo de feminista. Além disso, enquanto vindas de pessoas diferentes, com vidas e interesses muitas vezes opostos, as reivindicações feministas variam muito. A prova disso é a existência de vertentes totalmente contrárias dentro do feminismo que nunca entrarão em acordo.

O feminismo é uma luta de gênero que age pela igualdade, pelo fim da discriminação sexual, pela equidade de direitos, o que é completamente diferente de lutar para extinguir direitos alheios ou querer privilégios! Mas as pessoas distorcem, infelizmente. E o caso mais batido – vou começar a chover no molhado aqui – é quando se referem à Marcha das Vadias! Não sei qual o motivo de tamanha dificuldade para entender, talvez a ironia do termo “vadia” para nomear o movimento e a preguiça de dar uma boa pesquisada antes de sair afirmando coisas, sejam alguns dos responsáveis por tantas más interpretações acerca do protesto.

Usar o termo vadia de forma irônica, como foi feito na marcha, é apenas um meio de expressar que nenhuma mulher deve ser discriminada por querer ser livre. Uma forma de expressar tamanha frustração por ainda hoje termos uma convenção social que faz acreditar que mulher tem que casar, cuidar de filho, que quando dá opinião demais é porque está sem louça suja na pia! Se fugir da regra do que é uma mulher respeitosa, decente e para casar, é obrigatoriamente taxada de puta! E pra afirmar que se nos chamam de vadias porque não agimos conforme as regras, vamos continuar sendo vadias e isso não nos tira o direito de sermos respeitadas.

Mas aí afirmam: fazem uma Marcha das Vadias para dizer que querem ser respeitadas pelo fato de quererem “dar” pra todo mundo, sair pegando geral e mostrar os peitos na rua! E quando afirmo que as pessoas não se coçam pra fazer uma pesquisa sobre o que motiva esse tipo de protesto, estou sendo uma feminista chata e hipócrita. Primeiro: se uma mulher quer fazer sexo com 902802 homens, problema dela! Segundo: se fosse um homem que quisesse transar com 1 milhão de mulheres e conseguisse, ia ter quem aplaudisse. Querem ditar regra sobre o que as mulheres podem ou não podem fazer com o próprio corpo, e elas que não questionem, claro! Mas, sinceramente, apenas uma pessoa muito babaca vai às ruas lutando exclusivamente para ser respeitada por “pegar geral”, né? Falta o mínimo de bom-senso aos que pensam e afirmam que essa é a reivindicação mor do feminismo!

O real motivo das mulheres estarem saindo às ruas, muitas mostrando sim os seios, foi uma forma de se posicionarem contra a erotização do corpo feminino. A Marcha das Vadias surgiu após um segurança canadense dar uma palestra em uma universidade afirmando que para evitar que os estupros aconteçam as mulheres precisam parar de se vestir como vadias (sluts – daí o nome original “Slut Walk”) – eu avisei que ia chover no molhado! Ou seja, é pertinente se manifestar contra a erotização do corpo feminino (considero aqui a possibilidade de haver quem não concorda com a forma utilizada para protestar, mas em um país onde sair pelada no carnaval e na playboy são coisas hiper aceitas, acho de um moralismo e de uma hipocrisia sem tamanho não poder ficar pelada para protestar), principalmente em uma sociedade em que temos o costume de atribuir a culpa de um estupro sempre à vítima. Não é raro ouvir que se uma mulher estava bêbada, vestindo pouca roupa, andando sozinha durante a noite “estava pedindo para ser estuprada” ou “facilitou”! E afirmar isso reduz a culpa do estuprador! Qual a menina que nunca se sentiu mal por usar uma roupa curta, ter sido cantada na rua das formas mais ridículas possíveis e ficou achando que valia a pena passar um pouco mais de calor? Protestar mostrando os seios, usando roupas curtas, é uma maneira de dizer que a forma como nos vestimos ou nossa conduta não dá a ninguém o direito de invadir o nosso corpo! Usar roupas curtas ou não, não faz ninguém menos merecedor de respeito!

Eu estaria muito satisfeita se as confusões com as motivações por trás da Marcha das Vadias fossem a única causa que gera tanto conflito entre as feministas e o resto do mundo. Mas não. Ainda há quem afirme que as feministas são chatas por fazerem tempestade em copo d’água; essas pessoas devem ignorar todas as estatísticas já que acham que a existência de uma lei que puna a violência contra a mulher é garantia de que o problema está com seus dias contados e se esquecem de que nessa questão há um problema social muito grave: a crença de que a mulher pertence ao homem e deve respeitá-lo sob qualquer outro aspecto! Há quem afirme que a culpa por as mulheres estarem tão insatisfeitas com a tripla jornada de trabalho seja do feminismo; essas mesmas pessoas também são incapazes de questionar os padrões que eximem o homem da responsabilidade de cuidar da casa e dos filhos. Fora os inúmeros lugares comuns que vivem afirmando que mulher não sabe dirigir, que mulher “tem que ter onde pegar”, que homem depende da mulher por ser incapaz de lavar uma louça, fazer comida e que mulher é que nasceu pra isso. A opinião de uma mulher é chamada de TPM! No fim, acabo concluindo que essas pessoas não fazem ideia do quão reacionárias e levianas acabam sendo!

Não há uma cartilha que exponha todas as causas que fazem parte do rol de reivindicações feministas ou que dite quais os comportamentos a serem seguidos pelas feministas. Mas ser feminista é questionar padrões, estruturas e verdades aparentemente inquestionáveis. As feministas não são gordas ogras e peludas, mal amadas que só conseguem homens sendo vulgares objetos sexuais, ou que obrigatoriamente são lésbicas e pior, mulheres de modo geral, que odeiam os homens (a isso damos o nome de misandria). Não é preciso abolir a depilação e nem a chapinha ou crucificar a instituição do casamento para se enquadrar no feminismo, apenas respeitar sua essência pessoal a ponto de não ser escravizado por padrões inatingíveis da perfeição feminina.

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” Simone de Beauvoir

Written by

Blogueira desde 2011, escreve sobre dores, amores e livros. Paulistana e mãe de 3 gatos deseja compartilhar suas paixões nesse blog.

9 comments / Add your comment below

  1. “…chovendo no molhado”, mas talvez a água transborde ou faço alguns escorregarem. Concordo plenamente. mas o problema muitas vezes na visão do feminismo alem do não conhecimento da causa e origem, o real entendimento do ato e filosofia, da luta. Muitas vezes as próprias ditas feministas não sabem pelo que lutam, veem no cartaz de força da mulher uma bandeira no qual exigir respeito e direitos sem realmente compreender o que isso significa. Muitas usam “a expressão” apenas como alicerce para a própria causa e contra-luta. a gente vê isso em varias manifestações, das eleições, contra a homofobia, contra discriminação racial, da maconha e etc… o passo principal é como vc expôs aqui: entender o histórico do quadro social e cultural que culminou na realidade atual e assim compreender e questionar o manifesto em si. Eu particularmente entendi mais sobre agora com seu post. confesso.
    Mas a premissa não é tão complicado, quando não colocamos o medo a frente do conhecimento ou da argumentação(medo do desconhecido afinal); é simples:
    “Todo ser humano tem o direito de ser livre e tem a obrigação de respeitar”. simples independente de gênero.
    Se foi dado, ou permitido ao homem o “direito” a possibilidade de ir e vir sem camisa num dia de calor, de sair de madrugada com shorts de malha acima do joelho e regata sem temer violências ou abusos sexuais e morais, se concordamos que um casal e sociedade se faz na cooperação de massas – cada um tem o mesmo valor e utilidade – e se a moral e dito bons costumes não batem o martelo cego diante do uso do ‘nosso’ corpo a sexualidade, seja para ganhar a vida ou para o prazer, relações e etc de quantidades e frequências… qual a logica de a mulher não ter os mesmos direitos? Uma vez que a tempos dizem termos nos livrado da teocracia dominante, e dado vazão ao Estado Racional.?
    Acho simples. Mas talvez eu faça parte da minoria das gotas que insistem em chover em baldes cheios e esburacados.
    (me excedi rsrsrs) adorei a reflexão!

    1. É tão simples, mas ainda é desafiador tratar desse assunto!
      Exato, é só analisar a quantidade de mudanças que ocorreram em torno da situação feminina e, ao invés de termos conquistado direitos iguais, sofremos um acúmulo de tarefas que só é gerado porque ainda temos um modelo social que afirma que mulher pode trabalhar e ser independente desde que cuide os filhos, da casa, do marido, mas que exime os homens dessas responsabilidades, porque ser homem e delicado, cavalheiro, é sinônimo de ser gay!
      Fora a questão de que é péssimo receber cantada de caminhoneiro na esquina da sua própria casa num dia de 35° e andar com medo de que algum delinquente resolva te atacar por achar que a sua roupa lhe deu esse direito! Me causa indignação, mas é a realidade! Eu e milhares de mulheres sofrem todo dia com esse problema!

      1. de fato. e o triste é que as vezes nem se percebe esse quadro. São atos que parecem tão impregnados em nossa realidade que nem mesmo sabemos onde começa e onde termina a descriminação e o preconceito – o ato de exclusão e dominação-.

        1. Chega de ser fantoxes de paradigmas e construcoes arcaicas, homens e mulheres diferentes na sua formas de existir, iguais no que diz respeito a direitos sociais, politicos, lutemos por igualdade, vivemos ensaios para achamada humanidade, se e que ja houve humanidade algum dia… entendo o feminismo como uma via eficiente de descontruir o patrialcalismo.

  2. Eu estava procurando exatamente uma resposta esclarecida sobre o assunto ainda tão polêmico que é o Feminismo. Acredito que todas as mulheres deveriam pensar dessa forma, para sua ”libertação”. Parabéns pelo texto!

  3. Adorei o texto ,se todas as mulheres se engajassem nessa luta evitarimos e muito a falta de respeito,discriminaço e etc…da qual somos vitimas.

  4. As mulheres tem q se juntar e nao desanimar d lutar pelos nossos direitos a uniao faz a forca.Percebem q existe mulheres machistas q ainda diz pra outra puta,vadia vc roubou meu namorado q vergonha hein como queremos comquistar nossos direitos se as propias mulheres sao piores q os homens as vzs.Qnd uma mulher eh estrupada ela leva a culpa simplismente por estar usando uma roupa curta vcs ja viran um homen q anda sem camisa ser estrupado na rua? nao neh e porq isso acontece com mulheres mas nao vamos desistir temos muita forca pra comquistar nossa liberdade em tds os sentidos abracos

  5. “Primeiro: se uma mulher quer fazer sexo com 902802 homens, problema dela!” Bom, na minha opinião, se ela faz sexo com todos esses tantos de homem, o problema é dela, claro. Mas só acho que ela não pode exigir respeito depois, como um homem na mesma posição também não deva exigir. Porque antes de tudo a pessoa deve se respeitar :))

Deixe uma resposta