O que ele viu em mim?

Você gosta daquele seu jeans que faz com que você pareça mais magra e detesta ó vestido com uma fenda nas costas que ele te deu de aniversário. Você se ama naqueles dias em que o seu cabelo amanhece como se tivesse acabado de sair do salão, mas ele gosta quando você acorda com preguiça de penteá-los, faz um daqueles coques meio mal-feitos, e passa o dia com ele. Ele gosta das caras que você faz enquanto lê um livro engraçado, e fica com aquele sorriso no canto dos lábios. Você nem percebe, mas ele gosta mais de quando você age naturalmente do que quando você se prende a inseguranças e age como se seguisse um roteiro ensaiado de caras, bocas, cabelos e maquiagem.

Ele parece gostar de você exatamente pelos motivos opostos aos quais você preza a si mesma. Você se sente mais segura com aquele novo corte que te deixa com cara de moderninha, mas ele prefere o cabelo antigo, que te deixa com cara de você mesma. E ele te deixa com a impressão de que as características que você e ele detestam em si mesmos são completamente diferentes. Os relacionamentos têm dessas, a gente nunca é amado ou odiado pelas coisas que a gente acredita que é! Ele odeia aquele colete que você o obriga a usar por cima da camisa nos dias de frio; ele diz que fica com cara de nerd, mas você acha que combina com a barba dele e o deixa mais charmoso.

Vocês custam a acreditar um no outro, mas no fundo sabem que esse é um dos pontos mais incríveis de estar ao lado de alguém: sempre dá para descobrir coisas sobre nós mesmos através e com a ajuda do outro. Estar ao lado dele te faz parecer mais real, se sentir mais mulher, mais livre, com mais vontade de ser quem você é e se livrar a cada dia de qualquer insegurança ou vergonha que isso te traga. Te faz acreditar que não só você ou ele, mas que toda pessoa é muito maior do que parece ser e muito mais do que cabe em si. É até esquisito, mas quando ele diz que ama aquela sua marca de nascença que você sempre acreditou que estragava suas pernas, ele te faz perceber que, mesmo com todos os altos e baixos da relação de vocês, um ponto muito crucial ainda está presente para segurar tudo: ele atura as coisas que você julga mais irritantes em si mesma e isso o torna diferente de todos os outros.

Agridoce, 5 indicações ao VMB e um dos discos inesquecíveis do ano

Capa do disco do Agridoce indicada ao prêmio de Melhor Capa para o VMB.

Há tempos venho pensando que o disco do Agridoce é uma espécie de álbum de cabeceira para os hedonistas de plantão em busca de auto-conhecimento e boas reflexões. E não há nada que combine mais com auto-conhecimento do que liberdade. Dito isso, é válido lembrar que Pitty, desde seus trabalhos anteriores com sua banda de rock, sempre abordou esse tema. A diferença agora, além de um outro modelo, com canções tocadas em uma base de piano e violão, e instrumentos experimentais, é a maturidade, uma palavra que inclusive combina muito com o disco.

Como já foi explicado em diversas entrevistas do duo, o Agridoce surgiu de maneira nada intencional, sem compromisso algum de agradar o público, e realmente parece ter sido fruto de reflexões, conversas e raciocínios internos de Pitty e Martin, que em momento algum seriam divididos. Conversas de dois amigos, na sala de casa, que confessam coisas e encontram cumplicidade entre si. É o que percebemos ao ouvir a primeira música do CD: o som vazado e os barulhos do ambiente nos fazem entrar no universo onde foi gravado o disco e mergulhar nessa viagem que fala de busca, insatisfações, desejos, paixões, temores, liberdade e mais uma porção de outras coisas. E a mensagem na primeira música é clara, “Once in hell, embrace the devil!”, uma música que fala de mentiras boas e necessárias, e que convida o ouvinte a escutar o CD e tirar suas próprias conclusões, quase que propositalmente.

O disco do Agridoce conquista e o faz por falar de uma forma convincente, inovadora e poética de coisas que todas as pessoas já viveram, em maior ou menor proporção. Quem nunca se sentiu insatisfeito com a vida e com a humanidade, sem fé, sem conseguir enxergar graça em muitas coisas e se fechou em um mundo particular, acreditando que a vida só vale a pena se pudermos estar nos divertindo com nossos amigos e ao lado de pessoas que nos compreendem e as quais amamos? Dançando fala sobre isso, de uma maneira bonita e hedonista.

Continuando com o álbum, “Say” transforma tudo em um filme, nos fazendo recordar aquelas cenas já que além de saudade trazem cheiros, sabores e as cores de uma câmera Super 8. “Romeu”, a quarta faixa do CD, tem um tom de declaração de amor, de “música doce para pessoas amargas”, como já brincaram Pitty e Martin ao explicar o batismo de seu projeto paralelo. “20 passos” traz  Martin cantando, em uma música que, além de um dedilhado incrível, abre as portas do disco para questões um pouco mais existencialistas, trazendo a questão do auto-conhecimento e da busca presentes nas músicas que vêm mais adiante. “Ne parle pas”, a única faixa em francês do disco, é mais uma música que tem tom de declaração de amor, mas dá espaço a brincadeiras e dizeres nas entrelinhas.

“Upside Down”, é uma das melhores músicas, ganhando bastante destaque nos shows é mais uma música carregada de temas existenciais. Em “Epílogos e Finais” o tema é muito claro, como a Pitty já disse uma vez em seu blog, a injustiça que é viver e começar a envelhecer quando se está no auge da vida. “Rainy” e seu piano preparado, em contrapartida com “Epílogos e Finais”, é mais otimista, com um refrão inspirado, candidata da hit. Em “130 anos”, minha música preferida não só do disco, mas de todos os trabalhos da Pitty, é uma música que fala sobre busca, coragem de seguir sonhos e ser o que se é independente do que outros esperam que sejamos. Uma injeção de inspiração, tanto da letra quanto da melodia, que é espetacular e um dos pontos altos do show! “O Porto” fala de insatisfações, de querer sempre ser mais e melhor, outra dose de inspiração.

O disco termina com uma versão da música do The Smiths “Please, please, please, let me get what I want”, que mais parece uma prece e encerra o CD nos deixando com vontade de sentir tudo o que o disco proporciona mais uma vez. É, sem dúvida, um disco que entrou para a lista das melhores surpresas do ano e que faz jus às 5 indicações que recebeu no VMB. Espero que o trabalho renda ainda bons frutos e que coexista com a Banda Pitty, que também desejo que venha com um disco o qual eu ouça e elogie com prazer assim como o Agridoce!

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Clipe Oficial. Direção de Ricardo Spencer. 

Para quem quiser ler a crítica do clipe e ficar um pouco mais por dentro, clique aqui.

O desprendimento e os pensamentos soltos da minha cabeça

O efeito de começar um novo ano solar não poderia ser outro: o desejo de me desprender de tudo o que eu sou e já fui, e me reinventar. Acho que é natural e saudável, por que, no final das contas, a gente acaba sempre se cansando de ter sempre as mesmas opiniões e certezas. E eu tenho buscado ser mais leve, estar ao lado de pessoas leves e ajudar quem queira a levar a vida com mais leveza. Faz um bem danado para o coração e para as rugas.

Me livrei de algumas inseguranças bobas que me impediam de caminhar para frente, me despi de algumas verdades encravadas que eu tinha, me aproximei novamente de pessoas com as quais e me sinto bem e quero o bem, e me afastei de pessoas que me prendiam a pensamentos e rotinas que não tinham mais a ver com quem eu sou agora e quero ser. Não é possível que tenhamos todos que ficar abraçados com nossos problemas e frustrações. Quando a gente pensa pra frente é que se caminha para frente. Quem fica acorrentado ao passado é que permanece preso ao mesmo lugar.

Outro dia tomei coragem, fiz coisas incríveis que eu jamais teria feito a algum tempo atrás. Nada demais e nada de errado nisso também. Só sair, dar boas risadas, assistir a um filminho mais ou menos… Outro dia desci a rua Augusta me sentindo livre, dona de mim e das minhas escolhas.  Passei mais um aniversário desejando coisas boas pra mim e para todas as pessoas. Que a gente tenha fé e sabedoria, que a gente não tenha medo e acredite na nossa capacidade interna. Que a gente veja luz onde não tem e não deixe que nos digam que somos incapazes de realizar e ser o que quisermos ser. Que a gente possa ter calma e sempre aquele restinho de força que a gente percebe quando parece que não há mais saída para os nossos problemas. Que a gente, acima de tudo, reconheça o nosso valor e não se deixe balançar por problemas menores que a gente.

Outro dia também li uma frase, acho que era do Caio Fernando Abreu ou da Clarice Lispector e dizia: “ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber um pouco de amor também”, algo assim. Genial. Então, que a gente ame, mas as pessoas que merecem o nosso amor, porque não nascemos para sermos feitos de idiotas, e que a gente se livre dos medos e se permita se sentir amado. Que a gente nunca desista de nós, mas que tenhamos amor-próprio pra desistir de tudo o que for demais para suportar. Que cada um descubra a vida, e a si mesmo, em seu próprio tempo…

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” Simone de Beauvoir

Com essa vida que se leva "não sobra nada pra morrer"…

Ninguém gosta de falar sobre a morte. É mórbido, assusta, é estranho pensar no mundo girando sem a gente pra fazer parte dos fatos. E, devido a essa nossa dificuldade de pensar sobre o assunto, acabamos vivendo como se tivéssemos mais sete vidas pela frente, mas não temos. Sempre me faço uma pergunta: “Se eu morresse hoje, eu estaria satisfeita com a vida que eu levei?”, e é claro, a resposta é sempre “não”! A gente idealiza uma vida, mas é sempre impossível colocar tudo em prática e aí ficamos com aquela sensação de que podíamos ter feito mais, mudado uma atitude aqui e outra ali, que podíamos ter tido mais coragem, etc… Sempre me pergunto também como eu viveria se soubesse que só tenho mais um ano de vida e chego à conclusão de que eu me importaria menos com as coisas que tiram o meu sono de noite, que eu teria menos preguiça de me levantar da cama, seria mais próximas das pessoas que eu amo e relevaria mais algumas atitudes para evitar brigas, teria mais coragem de ir atrás do que eu quero e me importaria menos com a opinião alheia, entre outras coisas.

Fazendo todas essas perguntas, eu sempre me surpreendo negativamente com a quantidade de gente que vive amarrado à convicções que não importam porcaria nenhuma, obcecados com a ideia de que é preciso ser normal. Em um mundo capitalista o que é ser normal? É viver em busca de status, dinheiro, ter uma casa bonita e um quadro digno de “família de comercial de margarina” na parede da sala enquanto os problemas se acumulam debaixo do tapete? Enquanto a sede por dinheiro não paga a conta de uma vida gasta tentando se adequar á última moda? Isso é o oposto do normal, nada mais é do que nós humanos aplaudindo a escravidão a que o sistema nos submete.

Estamos nos tornando seres previsíveis e pateticamente parecidos, enquanto deveríamos valorizar as diferenças em nome de um mundo com mais graça, mais cor, mais contrastes e mais humanidade antes de qualquer coisa! Soa revolucionário e romântico, mas não é! Estamos cercados de medo, como se a nossa liberdade fosse um peso maior do que o prazer que ela pode proporcionar. Na verdade nós temos medo e não sabemos nem de quê e o medo é a principal arma do sistema para nos escravizar! Nós somos escravos das instituições religiosas que fazem  de tudo para moldar nossas leis e nos obrigar a agir de acordo com suas epifanias doentes! Somos escravos do trânsito que nos faz perder horas e horas a fio em congestionamentos. Somos escravos da moda, dos padrões de comportamento e de beleza, e estamos deixando que ponham as mãos em nossa bunda e nos digam que ela é grande demais para caber na calça cool da semana de moda! O modo como vivemos é uma espécie de não-vida.

Será que se tivéssemos realmente a consciência de que vamos morrer algum dia, nos importaríamos com qualquer bobagem e teríamos tanto medo de andar fora do rebanho? É simplesmente ilusória a ideia de que um novo sistema mudaria as coisas, que uma revolução adiantaria alguma coisa! Seria o mesmo que fantasiar uma pessoa de árvore, ela continuaria uma pessoa! Temos que começar por nós, viver como se não tivéssemos muito tempo, e começar a agir de acordo com nossa consciência e fazendo as nossas próprias escolhas sem nos importar muito com o que esperam de nós! Embarcar numa viagem de auto-conhecimento e evolução pessoal e só então, poderíamos conquistar todo o resto! Viver não só com nossos corpos e nossas contas bancárias, mas com nossa alma, por inteiro, sendo senhores de nossas vidas e das mudanças que queremos ver!

“Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte. Não reverenciam suas próprias vidas, mijam em suas vidas. As pessoas as cagam. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, cinema, dinheiro, família, foder. Suas mentes estão cheias de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas. Seus cérebros estão entupidos de algodão. São feios, falam feio, caminham feio. Toque para elas a maior música de todos os tempos e elas não conseguem ouví-la. A maioria das mortes das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada para morrer.” Charles Bukowski

E você, morreria feliz? O que faria se tivesse apenas mais um ano de vida?

Eu sou criança grande sabe, e eu quero sair e pular nas poças ♪

Viver é uma aventura muito mais profunda e desesperadora do que parece ser… É ter certezas e mesmo assim estar perdido na estranheza de viver não se sabe como e morrer sem saber onde, quando e nem porquê. E eu chego aos 20 sem conseguir traçar um balanço sobre a minha própria vida, sem saber se algumas escolhas que fiz foram atos de coragem ou a mais pura babaquice mas, acolhedoramente, com a sensação de que eu prefiro fazer o que julgo certo do que ser levada pela corrente e não decidir sobre meus próprios caminhos.

É irônico até perceber que algumas verdades de 5 anos atrás não servem mais e que outras se fortaleceram, lembrar de amigos, rever memórias e notar que apenas o que é verdadeiro ficou. Sem culpa, sem “e se eu tivesse”, apenas com o conhecimento de que tudo passa e essa é uma lei da vida… Finalmente me sentindo uma adulta, meio pós-adolescente claro, mais mulher, mais responsável, mais pé na porta e mais forte. Aliás, que maravilha é criar o desafio de cumprir seus planos! 2.0, here I go!

*Título: trecho de Sigo o Coração que diz que não sabe, mas é segredo, do Dance of Days.