Agridoce: músicas quase doces para pessoas nem tão doces assim!

Não é segredo pra ninguém que sempre gostei da Pitty, tanto da sua banda como da sua pessoa, que conheço muito pouco, de entrevistas e letras de música, muito mais do que pessoalmente. Depois algum tempo de reflexão, cheguei à conclusão que esse encanto se deu por identificação com a maneira diferente e não hipócrita de falar e analisar a condição humana que Pitty carrega em suas composições, seja com a banda Pitty ou com o Agridoce. Se em seu projeto principal a maneira de abordar os temas é mais incisiva e clara, o Agridoce, por outro lado, deu à cantora a oportunidade de explorar um outro lado de sua personalidade, talvez mais subjetivo, e não por isso inferior. E que bom que ela resolveu compartilhar esse lado até então desconhecido, além de sua vontade e vocação para explorar outros ritmos e sonoridades. O mundo agradece!

O disco do Agridoce, de título homônimo, começa com um convite ao espectador para que este penetre no universo em que foi gravado o disco, intitulado “Agridocelândia” – uma maneira divertida de se referirem à casa localizada na Serra da Cantareira, onde Pitty e Martin ficaram isolados por mais de 20 dias e se deixaram levar por suas composições – com sons de fundo onde é possível ouvir o canto de pássaros e fisgar um pouco do clima ambiente. “Once in hell, embrace the devil” é parte do refrão da música que abre o álbum, falando com sutileza de como algumas pequenas mentiras acabam se tornando inevitáveis e essenciais para que nossos relacionamentos funcionem, mostrando já a dualidade presente no disco: músicas que apetecem os ouvidos, mas nem sempre a razão.

Divulgação; Foto: Caroline Bittencourt

“Dançando”, o primeiro single do Duo e segunda faixa do CD, seguindo a mesma linha da música que a antecede, acaba falando de uma maneira pouco comum da felicidade, do prazer de vivenciar belas tardes com os amigos e os momentos singelos da vida, fazendo um contraponto ao sentimento de não-inserção no mundo e até misantropia. O piano, o violão dedilhado e as várias camadas presentes na música, identificáveis mais facilmente com a ajuda de fones de ouvido, revelam outra característica presente no álbum: o tom minimalista e cheio de improvisos, já que durante a gravação a dupla utilizou sons do ambiente, e muitas vezes de elementos inusitados para compor a sonoridade única que marca suas músicas, como a técnica do “piano preparado”, que consiste em interferir no som do instrumento colocando objetos sobre suas cordas, criando efeitos peculiares.

Com canções em Inglês, Português e Francês, Agridoce segue nada óbvio, com letras que enganam ouvidos desatentos, cantando um romantismo muitas vezes byroniano, angustiado, pessimista e lúdico, como em “Ne Parle Pas”, onde o alter-ego com seu jogo de palavras me faz imaginar uma cena de sedução entre dois gatos felpudos ou “Romeu”, e em “Epílogos e Finais”, que revela o sentimento de inconformismo com a brevidade da vida e, unindo-se a “130 anos” e “O Porto”, gera inúmeras reflexões existencialistas ao ouvinte. Além disso, o álbum parece não se encaixar em nenhum rótulo musical: não é MPB e nem Folk, apesar de ter influências de ambos os ritmos, sendo a união de dois músicos trabalhando para a criação de algo original, maduro e despretensioso, como se mostrou o projeto desde sua origem.

Tão bom quanto o álbum, é o show do duo, que conta com a presença de dois músicos convidados, Loco Sosa (Samples e programações) e Luciano Malásia (Percussão) – que foram imprescindíveis para manter o minimalismo das canções e torná-las executáveis ao vivo – e apresenta além de todas as músicas do disco, algumas que acabaram ficando de fora, como B-day, e Alvorada, levando aos palcos o clima intimista, melancólico, reflexivo e introspectivo do projeto paralelo de Pitty e Martin. O único defeito dos músicos é terem um repertório curto demais!

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Para ouvir o disco: http://agridoce.net/

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Blogueira desde 2011, escreve sobre dores, amores e livros. Paulistana e mãe de 3 gatos deseja compartilhar suas paixões nesse blog.

3 comments / Add your comment below

  1. …curto demais… concordo plenamente e espero que ainda esse ano isso mude..rsrs
    Achei interessante a maneira que dissertou dessa vez.. sem fugir nenhum momento do tema e sem perder o equilíbrio objetivo…uma critica muito mais reflexiva do que técnica como no geral se vê(sempre é técnica ou emocional) o que geralmente novamente as vezes atrapalha na inserção do publico ao produto/obra..gostei disso na sua critica..
    frases como “músicas que apetecem os ouvidos, mas nem sempre a razão.” se encaixaram perfeitamente..
    adorei! e concordo com a critica… O mundo agradece!

    1. Own!! Valeu!
      Ah, meo! Esse é o problema! Quanto to quase lá, no clímax, acaba! Isso me enlouquece!
      É tipo coito interrompido, saca? Aí pra adiar o final fico ouvindo 130 anos no repeat! hahaha
      Eu quis escrever assim, mas objetivamente, pq com Pitty eu sou muito emocional! Acho que sou daquelas que vai sempre amar tudo que ela compõe! E eu não queria escrever como uma fã, tipo “estou orgulhosa do cd”!

  2. Muito bom mesmo seu artig oeditado. Confesso que sou fã da Pitty tambem. A maneira em que você expressou o significado ou a forma como até mesmo a Priscila Novais talvez descreveria as suas musicas.
    espero que leia sempre materias tão boas dinamicas como a sua.
    garannto que vai valer a pena.

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