Olhar Acostumado

Ela voltava para a casa depois de um cansativo dia de trabalho. As pernas já sabiam o caminho de casa, o pisar nas ruas, calçadas e avenidas, assim como todo dia ela sabia que lhe aguardava sempre a mesma rotina: acordar às 6:30, tomar banho e estar pronta até às 7:00, tomar café e sair de casa até as 7:25 am. Caminhar quatro quadras, desviar das crianças entrando no colégio e fazendo tumulto na calçada, virar à esquerda, andar 50 metros, passar pela portaria do prédio, entrar no elevador, apertar o número 15, falar bom dia para o chefe, despachar formulários para o RH, atender clientes estressados, fazer reunião com os demais funcionários, se atrasar para o almoço e ser obrigada a almoçar no pior e único restaurante que serve após as 3:00, voltar correndo para o escritório, atender mais clientes que não transam e as 5:00 deixar o trabalho. Era assim que vivia a consultora econômica.

Os amigos perguntavam se valia a pena o tanto de stress para o salário e ela dizia que sim, tinha sempre o que queria, o carro que desejava, o apartamento bem decorado, as contas em dia, a posição que queria, mas não tinha a vida.

Era quinta à noite e após chegar do trabalho, trocar de roupa e comer uma maça, ela saiu de casa para ir ao teatro ver uma peça estrelada por um grande amigo que ela intimamente desejava que não fosse só um amigo. Gargalhadas, lágrimas nos olhos de orgulho e comoção também, no final do espetáculo cumprimentou o amigo, cumprimentou os atores e foram só os dois andar por São Paulo ao anoitecer, ambos com suas cervejas na mão.

– Tenho te achado tensa, sabia?

– E quando é que pessoas como eu não ficam tensas?

– Quando elas podem ser livres…

– E como podem ser livres se têm que pagar pela liberdade e mesmo livres para viver como elas querem, ainda são escravas do saldo bancário? – ela retrucou.

– E quando é que você vai deixar de ser escrava dos seus próprios temores? Já experimentou fazer algo sem pensar pelo menos uma vez na vida?!

Então ela o beijou e sentiu um alívio e ao mesmo tempo um frio na espinha de medo e susto quando as mãos dele tocaram seu rosto e após alguns instantes ele se afastou.

– Sim… Pela primeira vez na vida eu fiz! – Ela disse, virou as costas e saiu andando.

– Espere!! – Ele a segurou pelo braço, colocou a mão em sua cintura e a beijou novamente.

Depois foram andar pelo centro, tentavam encontrar detalhes perdidos pela cidade onde a beleza ficava ofuscada pela rotina e pararam em frente a um muro onde havia um trecho de uma música escrito: “Acreditar que todas as pessoas são felizes. Quem me dera ao menos uma vez…”  e o restante do refrão ficava coberto por um estêncil com o rosto do Renato Russo.

– Pelo menos eu estou feliz e acho que é o que importa agora…

– Uma vez eu li um livro, era de crônicas, que dizia que uma vaca, lembra das vacas que ficavam espalhadas pelas ruas?, era a mesma coisa que uma poesia, quebrando com o tédio e a rotina das ruas sempre iguais… – Ela disse.

– Não temos as vacas, mas temos a poesia!

– Eu acho que você foi a vaca da noite! – E ele sorriu e a beijou, pensando que ela era mais divertida do que ele sabia e deram mais algumas voltas, sentaram-se num bar de esquina e conversaram na companhia dos bêbados e das garrafas vazias que iam se acumulando na mesa.

Quando o bar fechou foram para a casa dela.

– Ah, meu deus! Já são 11 da manhã, a essa hora eu devia estar no trabalho! – Ela acordou assustada com uma mensagem de texto de seu chefe chegando.

– Relaxa, você já se atrasou mesmo… – Ela voltou para a cama, tirou a camiseta e o beijou. Fazia tempo que não fazia sexo matinal;

– Então é isso que chamam de tocar o foda-se? – O celular que vibrava sobre a cama foi jogado  no chão e se espatifou.

*O livro de crônicas se chama Doidas e Santas, de Martha Medeiros.

 

 

Se a alma não é pequena

Eu tenho muitas manias adquiridas ao longo dessas minhas quase duas décadas de vida e muitas delas dariam boas sessões de terapia. Uma delas é meu costume de sempre achar que a culpa é minha por absolutamente tudo e outra, é me sentir a mais idiota das pessoas sempre que algo foge aos meus planos. É uma eterna briga entre o meu bom senso e a minha ousadia, o primeiro tentando me mostrar que banquei a idiota e devo me culpar por entrar em batalhas perdidas e a segunda, contando os pontos por eu ter me permitido fazer o que achava viável.

Tenho escolhido comprar brigas, dar opiniões, expressar sentimentos os quais eu nem sonhava com a existência, viver coisas impensadas, sair da rotina, imaginar quem eu seria se minha personalidade fosse diferente, se minhas decisões tivessem sido outras, e tentado viver de acordo comigo mesma, para no final ter certeza de que tudo vale a pena se for motivado por algo real, algo sincero. Sinceridade é a palavra, é a justificativa para todas as escolhas malucas que por vezes fazemos e pras besteiras também, é a certeza de que por mais absurdo que algo tenha sido, foi o melhor ou o mais propício ao momento.

A verdade sobre mim é que eu não me importo de viver desde que seja por algo de verdade. Um amor pelo qual valha a pena matar ou morrer, amigos pelos quais a conversa de bar compense a ressaca do dia seguinte, noites em claro que não me façam pensar que era melhor ter dormido, vida que não me faça pensar que era melhor não ter vivido…

Eu quero algumas certezas, mas não muitas e principalmente essas.

Morrer é fácil, amar é que é difícil…

Rainha do drama e a melhor em desperdiçar o tempo com preocupações inúteis. Acho que é mal de espécie o fato de todos nós humanos termos  a capacidade nata de não saber reconhecer o que realmente importa. É clichê, porém é também um fato que só reconhecemos o valor das coisas quando as perdemos, ou no caso de agora, quando chega uma reflexão em formato de luva de box e acerta num golpe a boca do estômago.

Assisti um filme lindo essa noite, Inquietos, e achei a mensagem excelente. Me fez pensar muito e principalmente no quanto nossa vida é curta, no quão parecidos a grãos de areia somos se comparados ao tempo geológico, e sendo assim, no quanto é curto o espaço de tempo que temos para fazer com que nossas vidas se justifiquem. E para isso não podemos pensar e agir como se fôssemos eternos, porém quem sabe pensar que morrer não é nada se antes disso soubermos dar importância ao que importa.

Mas nós enquanto humanos tão mais evoluídos, conseguimos nos equiparar a ouriços, afastando as oportunidades com nossos espinhos de orgulho e prepotência, enquanto deveríamos baixar nossa guarda, perdermos nosso medo de revelar quem somos no mais íntimo escondido. Mesmo amando, temos medo de amar e nos deixar ser amados. Mesmo sentindo, preferimos sufocar as palavras dentro do peito e arrumar outra coisa para distrair nossa atenção. Mesmo não sendo eternos, conseguimos agir como se tivéssemos todo o tempo do mundo e acabamos não fazendo nada, não deixando nada, sendo apenas agulhas no palheiro desses 4,5 bilhões de anos do planeta. Nós humanos e tão sábios, ainda achamos dificuldades para encontrar o que enfim justificará nossa existência.

“Não há diferença no que estamos fazendo aqui
Que não apareçam como sintomas maiores lá fora
Então por que gastar nosso tempo vestindo nossas bandagens
Quando temos a chave fundamental para a causa aqui mesmo, dentro de nós?

Olhe nós formando nossas facções em nossa caixa de areia
Olhe nós microcrianças com nossos corações bloqueados
Olhe nós dando as costas a todos os pontos ásperos
Olhe ditadura no meu próprio quarteirão”
Alanis Morissette – Underneath

* O título saiu de uma frase do filme “Inquietos”.

"Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura."

Eu sempre gostei de escrever e escrevo desde os meus 11 anos, quando comecei a inventar algumas estórias e passá-las para o papel para então poder vivê-las. A escrita tem essa graça de proporcionar a vivência das coisas que se imagina numa espécie de sonho acordado onde quem escreve tem o poder de criar um mundo com suas próprias fantasias, mudar o curso dos acontecimentos, expressar sentimentos, ideias, colocar para fora mágoas e rancores, criar possibilidades e ainda camuflar tudo isso nas entrelinhas.

As folhas em branco dos cadernos velhos sempre foram bons aliados, era ali que enquanto pré-adolescente cheia de descobertas e imaginação eu podia ser eu mesma ou ser quem eu quisesse sem que alguém que julgasse. Era naquelas folhas vazias que eu encontrava companhia enquanto estava sozinha, que criava minhas próprias novelas e filmes, que fazia bondades ou maldades a personagens que secretamente eram pessoas do meu cotidiano a quem eu obviamente não podia declarar minha raiva ou amor tão descaradamente.

Nunca gostei de escrever diários, acho que sempre fui exibida demais pra isso e escrevia coisas pra divertir quem eventualmente lesse meus contos e minhas bobagens adolescentes e posteriormente, inspirada em escritores os quais eu admirava, passei a escrever prosas que tivessem um quê de poesia, expressando algumas das minhas idiossincrasias, pra ficar contente vendo algumas pessoas se identificarem…

Fui feliz por fazer da caneta e papel os aliados das minhas tramas e dos meus dramas infantis e hoje, graças a eles e ao meu querido notebook, posso dizer que escrevo como uma forma de me libertar de pensamentos que nem sempre são bem vindos, o que eu nem precisava dizer, afinal, com o título desse post nem precisaria dizer mais nada. Uma vez Bukowski, sempre Bukowski!

"You either get tired fighting for peace, or you die."

“Era uma vez um menino cheio de idéias estranhas. (…) Conversava com as Árvores e com as Pedras, e emocionava-se com elas, pela magnitude do que lhe contavam. Um dia as Árvores lhe disseram:
Sabe? No nosso Universo cada uma de nós cumpre o que lhe cabe, pela satisfação de fazer assim. Nenhuma de nós se exime da sua parte. Os humanos passam suas vidas a só fazer coisas que lhes resultem em tensões, infelicidade e doença. Não fazem o que realmente gostariam. Caem no cativeiro da civilização, trabalham no que não gostam para ganhar a vida e perdem-na, em vão, ao nada fazer de bom. Por isso tornam-se rabugentos, envelhecem e morrem insatisfeitos.  Procure você viver feliz como nós, pois alimentamo-nos, respiramos e reproduzimo-nos, tal como nos dá prazer. (…)”

Estava lendo um livro quando encontrei esse trecho e achei brilhante, traduzindo um pensamento que sempre achei importante: ninguém aguenta fazer algo que não gosta por muito tempo  sem começar a perder o gosto pela vida, e quando o assunto é infelicidade e insatisfação com a nossa rotina vale (quase) tudo pra mudar a situação, nem que pra isso seja necessário surtar. “Surtar para não enlouquecer”, surtar como um meio de achar o equilíbrio entre as nossas obrigações para com o coletivo e nossas responsabilidades e nosso compromisso com a nossa felicidade. Surtar a dois anos atrás foi a melhor coisa que me aconteceu, me impulsionou para um futuro cheio de possibilidades e pra longe da bolha existente na minha cabeça que além de me proteger do mundo, me impedia de viver muita coisa; me ensinou a ir em busca de paixões pessoais e não comportamentos idealizados pela sociedade, e ser um pouco mais egoísta na hora de tomar minhas decisões.

*O trecho é do livro Mensagens do Yôga, da Insituição Uni-Yôga.

** O título de de uma frase do John Lennon: “Ou você se cansa lutando pela paz, ou você morre.”

Os caminhos e minhas próprias escolhas sempre me levaram a acreditar que o mais importante nessa vida é conhecer a si mesmo. E isso não é apenas sobre saber do que se gosta ou não, mas sobre conhecer seus limites, enfrentar seus demônios, ter amor e respeito por si, para então conseguir viver bem consigo. Acredito que as pessoas não precisam de dogmas ou deuses, regras ou pessoas dizendo como elas devem se comportar se elas têm ciência de onde estão seus limites, suas paixões.

Cada vez que uma pessoa deixa de viver conforme gostaria pra obedecer regras, viver uma vida que lhe foi imposta, deixa também de caminhar sobre suas próprias pernas e aprender com seus próprios erros, e assim fica pra sempre andando em círculos, sem usar seu senso-crítico, mas seguindo imposições vazias, vivendo e desperdiçando seu tempo com propósitos vazios.

Serei eternamente curiosa em relação ao sobrenatural, à existência de Deus, desconfiada das religiões, sem exceção, mas continuarei acreditando que com ou sem dogma a ser seguido, a missão individual de cada pessoa é tentar ser melhor para si mesma e para o mundo e não melhor do que o mundo…

“Não me importa onde estarão os monges e onde estarão as auto-estradas. Para mim, o importante é fazer o amor, e não a guerra, em todos os lugares do mundo.” John Lennon