O Ciclo da Preguiça

Preguiça de falar, preguiça de ir tomar banho, preguiça de ler as anotações do caderno para a prova, preguiça de sair da cama, preguiça de comer quando bate a fome, preguiça de xixi quando a cama de noite está confortável, preguiça de discutir, preguiça de estressar, preguiça de ir dormir. Preguiça, substantivo abstrato que combina com quase todos os verbos, mas principalmente com o substantivo gente. Preguiça de gente!

Eu tenho preguiça de muita gente. De dar bom dia, puxar algum assunto, ouvir constatações. Preguiça de dizer que não concordo, que as coisas não são ou não foram bem assim, que o buraco é mais em cima, ou pra baixo, ou que nada na vida pode ser tão linear quanto o certo ou errado de uma conta matemática. Tenho preguiça da preguiça que se tem de pensar. Preguiça da preguiça de pensar que tudo pode ser tão fácil e simples, e catalogável como correto ou incorreto, bonito ou feio, e nada além disso. Preguiça de quem se limita em viver no espaço mínimo entre dois opostos que correm o risco de colidir.

É nessas horas de preguiça, tédio e insatisfação generalizada que tenho a vontade de me aprisionar no meu mundo particular e permanecer incomunicável por dias, até que sinta a necessidade de falar com alguém. E enquanto essa necessidade não se manifestar, me desfazer de tudo: das paranoias, das imposições externas, das palavras que eu repito e sei que não são minhas, olhar pra tudo o que faz parte de mim genuinamente ou foi adquirido, como num jogo de quebra cabeças, tentando descobrir quais peças fazem parte de um determinado local e quais não. E aí, quando todo o quebra cabeça estiver montado, tal como uma fênix, renascer em meio às cinzas, com as energias renovadas. É o Ciclo da Preguiça, comumente chamado de Ciclo de Shiva.