O legado de Amy Winehouse

Hoje infelizmente ao acordar recebi a péssima notícia da morte de um ícone pop, a britânica Amy Winehouse. Noticiários cheios de especulações, falso moralismo e na internet não menos: piadinhas de humor negro que não cabem no clima de luto e sensibilidade que o momento pede. Passada a revolta e o choque pela notícia, ficou a reflexão do que Amy deixou para seus fãs: tem quem acredite que seus shows de maus exemplos tenham ficado muito mais marcados para servir de exemplo para aqueles que usam drogas, do que propriamente seu talento, sua música e tudo que a cantora acrescentou em termos de fazer renascer o soul americano e abrir espaço para o sucesso de novas cantoras de jazz, blues, soul e pop não fabricado pelo mainstream, frisando um falso-moralismo e a necessidade de se vender e comprar tragédias.

Amy foi incrível, uma artista verdadeira e desbocada como há tempos o mundo da música pop não via, e sinceramente não vejo motivo para reascender o debate acerca do perigo gerado pelo uso de drogas. Prefiro deixar a discussão para os moralistas de plantão e continuar com o meu posicionamento de que cada um é responsável por suas escolhas, tem suas formas de escapar da realidade, e que isso não determina nenhuma falta de caráter. Amy fez suas escolhas, arcou com as consequências, mas vai ser eternizada pelo seu talento. Foi mais do que uma cantora de soul, jazz e pop, mas também uma compositora excepcional, que extravasava seus sentimentos de forma visceral e sincera. Amy estava doente já havia muito tempo e era claro que precisava de ajuda, mas seu talento é incontestável. Uma pena que a maioria tenha optado por enxergá-la como a esquizofrenia dos tabloides britânicos numa jaula de jardim zoológico, ao invés de notar sua sensibilidade e buscar compreendê-la.

Amy Winehouse vai deixar saudades!

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"‘Tudo o que é sólido desmancha no ar!"

Tenho notado que penso sobre coisas aparentemente simples, e aí, quando resolvo falar sobre elas aqui no Poética de Penseé, e tenho que pesquisar um pouco mais a respeito delas, percebo que, ao contrário das minhas impressões anteriores, os temas são muito mais complexos do que eu havia suposto. Hoje esse tema é o self.

O self, é o “eu” pós-moderno, que consiste numa ideia de “indivíduo” multifacetado, que é um e ao mesmo tempo vários, onde a multiplicidade e a unidade individual não se excluem, mas se complementam. Essa ideia se contrapõe ao “eu” moderno ao qual estamos habituados: um indivíduo com características próprias e constantes, imóveis. O fato de estarmos intimamente ligados a esse modelo se deve ao fato de nossas relações se basearem  na dualidade e na negativização, com simples conceitos de correto/incorreto, feio/bonito, bom/mau, sendo que um sempre é a negativa do outro.

Na verdade, cansei de me limitar a ser uma coisa só! Por que não ser várias, ser uma e todas ao mesmo tempo? Parece complexo, mas é mais simples e me soa mais verdadeiro do que ter que restringir minha conduta, meus gostos, me decidindo por uma única realidade. Geralmente fazemos muito isso na adolescência, quando sentimos a necessidade de buscar ideais, pessoas, estilos musicais, tribos, com as quais nos identificamos e que eventualmente também nos representam. Escolhemos um único partido e excluímos da nossa agenda todos os demais programas que se diferenciam do mesmo. É assim que aprendemos sobre quem somos, aquilo que achamos bom ou ruim, nos agrada ou não; e passando dessa fase, nada mais justo do que abandonarmos essas limitações e experimentarmos aquilo que nos faça felizes, mesmo que teoricamente nos agrade duas coisas que se contradizem e se opõem totalmente. Mais contraditório do que gostar de dois extremos opostos, é viver numa sociedade que obriga as pessoas a serem versáteis e ter que basear suas escolhas na dualidade do sim ou não, a menos que se deseje ser chamado de hipócrita.

É um direito de todos mudar de opinião, ou de repente compreender e aceitar que não existe uma só verdade a ser ouvida  e respeitada. Me sinto absolutamente a vontade para ouvir rock e jazz numa mesma tarde, ter amigos com características opostas, namorar e mesmo assim ser livre, e não é por isso que deixo de ter a minha personalidade, mas somente acrescento todas essas contradições ao meu ser… Aliás, acredito que essa compreensão do self, e o aceitamento da multiplicidade presente na sociedade em que vivemos, pode contribuir para a maior valorização do respeito pela diversidade, seja ela de que âmbito for e para o crescimento intelectual das pessoas. Somente quando o homem entender que não existe o certo e o errado, nem verdades absolutas e imutáveis, é que vamos poder falar de nossa racionalidade tão bem quanto falamos de nossa suposta inteligência humana.

Caçador de mim – Milton Nascimento

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

 

 

O Problema do Amor Unilateral

Semana passada, lendo alguns blogs, fui apresentada ao psicanalista Flávio Gikovate, que foi um dos pioneiros no Brasil a abordar questões sobre amor e sexualidade. Gikovate escreveu diversos livros e apresenta todos os domingos às 21h, pela CBN, o programa “No divã do Gikovate”. Foi uma enorme e maravilhosa surpresa assistir a uma palestra do psicanalista na qual ele fala sobre amor e sexualidade, temas que por serem dotados de tantos clichês e obviedade, tornaram-se chatos e desinteressantes. Gikovate porém, os abordou com uma enorme clareza e os expondo de maneira pouco corriqueira, provou que é sim possível falar sobre amor e sexualidade sob novas perspectivas.

Segundo o autor, crescemos buscando a sensação de perfeição, paz e plenitude que sentíamos ainda no ventre materno, que seria responsável pelo fenômeno do amor. Entretanto, crescemos acreditando em uma forma de amor que foge à realidade dos relacionamentos amorosos saudáveis e felizes, já que esta se baseia na ideia de um amor romântico, no sentido literário da palavra, que parte da premissa de que o indivíduo é sempre incompleto e então, irá se relacionar com outro ser tão incompleto e assim, os dois irão se completar, como se essas pessoas fossem a “fórmula da felicidade” de seus respectivos amores. Contudo, esse modelo não funciona, pois, baseado nessa relação de inter-dependência, os envolvidos passam a descontar suas frustrações e insatisfações nos parceiros, e a relação jamais evolui. Daí surge também a ideia de quem os opostos se atraem, visto que a mesma é alicerçada nos dizeres de que o o traço que um indivíduo não possui por natureza, ele irá encontrar em seu parceiro.

E então, dado o problema, qual seria a solução, a fórmula secreta que todos querem descobrir para viver relacionamentos amorosos saudáveis, felizes e prósperos? O segredo estaria na individualidade, que leia-se, é totalmente diferente do egoísmo. E realmente faz muito mais sentido: uma relação entre duas pessoas que são completas, que sabem conviver consigo mesmas, que não se afligem com a solidão e que se amam e acrescentam um ao outro. Foi lendo Gikovate que entendi o motivo de ser tão incompreendida por algumas amigas e de (quase) sempre me envolver com as pessoas erradas. Foi Rita Lee quem disse: “Amor sem sexo é amizade”, mas quando avançamos no patamar dos relacionamentos, acabamos nos envolvendo sentimentalmente com quase-amigos, quase por que, além do envolvimento afetivo, há simultaneamente o envolvimento sexual.

Estar ou não em um relacionamento concreto, estar namorando, morando junto, ou casado com alguém, é tido como um bônus para alavancar o status social, logo quem não está envolvido com ninguém é tido como um coitado, visto como incompleto. Realmente nunca tive ou sempre deixei minha sorte no amor escapar, o que não significa que eu seja menos feliz do que alguém que tem com quem dividir o travesseiro todas as noites. De fato, depois que parei de emendar relacionamentos que pouco me fizeram crescer, e perdi o medo de ficar sozinha, de não ter sempre companhia para o cinema, para quem ligar tarde da noite e falar coisas quentes, aprendi a gostar de quem eu sou e reconhecer o que há de bom e de ruim em mim, e conquistei o prazer de conviver e lidar bem com isso. Não há nada mais gratificante do que conhecer a si mesmo, e saber que esse auto-conhecimento foi conquistado à suas próprias custas, sem depender de uma terceira pessoa e claro, usar isso a seu favor, escolhendo melhor as futuras pessoas com quem irá se relacionar.

Contudo, é difícil que as pessoas percebam isso, como eu também demorei a perceber, e continuem no eterno ciclo vicioso dos relacionamentos de inter-dependência que nunca funcionam, até que resolvam mudar a fórmula. Talvez a dificuldade nessa mudança seja fruto de uma ideia de posse e ciumes existente na maioria dos relacionamentos, que ao invés de serem baseados na cumplicidade do casal, se estruturam em cobranças e obrigações. Nessa situação, acaba sempre existindo aquele que necessita menos de amor e o que necessita mais, sendo que sempre vai haver insegurança, insatisfação e a grande armadilha do amor unilateral,onde um sempre ama mais, ou ama a projeção que fez do outro para alimentar suas expectativas desesperadas de encontrar companhia e a cura para seu vazio interior. Não sei se é muito, mas talvez seja mais difícil encontrar quem esteja disposto a vivenciar um relacionamento “moderno” onde o amor e não convenções sejam a regra, e que haja sinceridade para que nenhuma das partes se aproveite da liberdade que o relacionamento fornece para garantir benefícios apenas a si próprio.

E segue abaixo um trecho da palestra de Flávio Gikovate no programa Café Filosófico:

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As demais partes do vídeo podem ser vistas no youtube e se você quiser saber mais sobre o tema, pode ler o artigos no site do psicanalista.

Ler para Ser: Desligue a televisão, saia da internet e vá ler um livro!

Eles começaram como tabuletas de argila ou pedra, posteriormente substituídas por cilindros de papiro e, depois, por pergaminhos. Meio de codificar leis, registrar dogmas e crenças religiosas, difundir costumes e informações, além servirem como documentos históricos, os livros são a maior invenção da humanidade. Imaginem o que seriamos sem os livros? Certamente nossa sociedade seria organizada de uma maneira totalmente  diferente, e provavelmente muito mais desorganizada também. Se antes os livros eram acessíveis apenas àqueles que constituíam a nobreza e as classes mais favorecidas, e logo, alfabetizadas, hoje, graças ao surgimento da imprensa e da tipografia na Idade Moderna, os livros deixaram de se restringir às minorias e garantiram sua importância. O desenvolvimento de todas essas tecnologias, mais do que documentar ou organizar a sociedade, possibilitou às pessoas o acesso ao aprendizado e à cultura, sem os quais estaríamos estagnados.

Gosto de uma citação de Monteiro Lobato que diz: “Um país se faz com homens e livros.”, e ainda acrescentaria dizendo que um país se faz com crianças e seus livros.Não é preciso muito raciocínio para notar que a leitura constitui um hábito que nós brasileiros não temos e não passamos para nossas crianças. A média de livros lidos pelos brasileiros por ano é de 4,7, segundo o Ibope, enquanto o europeu lê em média 8 livros por ano per capita. É mais fácil assistir à novela e ao analisar os problemas que nosso país enfrenta, percebemos o quanto esse desapego para com a educação e a formação intelectual dos nossos cidadãos é prejudicial.

Desde sempre os livros estiveram presentes no meu cotidiano, fosse em casa ou na escola. Sempre fui daquelas crianças que faziam birra no shopping pra “arrancar” livros dos pais ao invés de bonecas e percebo o quão bom isso foi para minha formação. Todo ano compro dezenas de livros que vou acumulando, lendo, emprestando, esquecendo, doando, perdendo as contas… Ler para aprender, ler para pensar, imaginar, rir, chorar, indignar-se, descobrir, mudar, trocar ou reforçar opiniões. Ler no ônibus, na fila do banco, no trânsito, antes de dormir, carregar um livro na bolsa e ler por pura distração esperando um amigo atrasado chegar ao local marcado, na sala de espera do dentista. Ler para ser cidadão! Quem não lê dificilmente consegue desenvolver um bom papo, ter opiniões embasadas, se colocar numa discussão, fazer uma boa crítica e ora, essas são ações muito básicas no cenário em que estamos inseridos. E fico indagando se ter um país com mais leitores, com pessoas mais conscientes e críticas não passa de uma grande utopia; questiono se algum dia a educação vai finalmente abandonar o patamar de “escada para o sucesso” e o status social e aí sim as pessoas irão estudar, ler livros, nem que sejam best-sellers que facilmente virariam uma novela global, não mais por obrigação.

Vou finalizar com um conto a carater, da Clarice Lispector:

 

FELICIDADE CLANDESTINA

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio
arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos
achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do
busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias
gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de
pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal
da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde
morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra
bordadíssima palavras como "data natalícia” e “saudade” .
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança,
chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que
éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.
Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler,
eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorarlhe
emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma
tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de
Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com
ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses.
Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o
emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu
não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me
traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava
num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando
bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina,
e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas
em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a
andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife.
Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias
seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me
esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de
livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua
casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro
ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu
como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se
repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo
indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já
começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho.
Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer
esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às
vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio
de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a
olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e
silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a
aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a
nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco
elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar
entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com
enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você
nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia
ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a
potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à
porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se
refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora
mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser."
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é
tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro
na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando
como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com
as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar
em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração
pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para
depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas
maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo
comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o,
abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela
coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina
para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia
orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo,
sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu
amante.