Liberdade é dizer que 2+2=4.

Quem leu 1984, do George Orwell,  já pode começar a ter uma noção do que vou falar aqui.

Todos as minhas postagens anteriores levaram ao conceito de liberdade, que como Cecília Meireles colocou muito bem, “(…) essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda…”. Que liberdade é essa que temos? Se é que temos? Esse talvez seja o tema mais amplo já abordado aqui, e também o mais distorcido. É difícil falar de liberdade. Mas, vamos lá!

No livro de Orwell, para quem não conhece, as pessoas são totalmente controladas pelo Estado e o regime do Grande Irmão, que controla o passado, o presente e o futuro, manipulando o pensamento e as verdades, que pertencem todas ao governo. E talvez a máxima do livro seja a frase: “dois mais dois são cinco se o partido quiser”. O livro foi publicado em 1948 e ainda permanece recente em suas críticas à manipulação, às formas de opressão, que, embora sejam fictícias na obra, dizem muito sobre o controle velado que é feito através das formas de mídia, da religião, e difundidas através do senso-comum. Ou seja, mesmo enquanto suposta democracia (inexistência de censura e ditadura – em tese), há quem pense por nós.

É um jogo: se o senso-comum é, e difunde o pensamento de uma maioria que só tem a ele, é preciso que essa maioria rompa com o senso-comum para que aprenda a pensar com a razão e tomar para si sua liberdade. Porém só rompe com esse senso alguém dotado de insatisfações (onde entra a educação) o que significa sair da zona de conforto que ninguém quer. Além disso, o sistema impede que as massas cheguem a essa insatisfação, controlando a realidade para que se mantenha o que é favorável a uma minoria, e fazendo com que as pessoas tenham a falsa sensação de serem livres. Outro ponto é: liberdade e autonomia andam de mãos dadas e, ser livre inclui ser responsável pelas conseqüências das escolhas que fazemos para nós mesmos. A zona de conforto exime dessa responsabilidade.

Então, acho que seria razoável dizer que essa liberdade pela metade é uma conspiração. Há quem ganhe e há quem perca com isso. O governo que lucra pois faz o que quer sem que muita gente questione, e as pessoas que perdem pois não se desenvolvem plenamente e tem seus direitos suprimidos sem que perceba. É irônico, mas as pessoas sabotam a si mesmas, fazendo o seu próprio controle a partir do senso-comum. George Orwell foi muito feliz nessa crítica que fez a sociedade através de sua ficção, e 1984 é um dos meus livros favoritos.

Para concluir essa lógica de liberdade ilusória, gostaria de colocar uma relação elaborada pela Simone de Beauvoir no livro “O Segundo Sexo”, utilizada para retratar a condição de submissão da mulher ao homem:

"A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem
e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o
essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro."

É o mesmo tipo de relação existente em todas as relações que envolvem hierarquia: quem domina garante assim mais direito a ter direitos e toma para si a liberdade, subjugando o próximo, o colocando como inferior. Ele se torna o sujeito, o Um, logo cria a figura do Outro,  utilizando sua força, seus meios, sua persuasão, para reservar o direito de liberdade, única e exclusivamente, para si. Manipulação, a gente vê por aqui. (:

Insônia – Dance of Days

“Guerrilheiro na montanha à sombra de uma flor.

Dez minutos… dois minutos…”

Winston não vê mais seu sorriso
e Winston já não ama o Grande Irmão.
E a rádio livre derruba aviões pra informar
que Winston tem a voz:

“Acordem crianças do campo
que é hora de inverter o curso dos dias.
Vamos quebrar televisões
e inflamar bandeiras.
Acordem crianças que a aurora
aponta o pesadelo dos donos da moral.
Vamos queimar as roupas em missas e funerais.
Acordem que o tempo é curto demais.
Crianças, acordem que a vida que nos roubam
jamais irá voltar
e este mundo que nos deram já não basta.

As canções proibidas serão cantadas por nós
e o todo libertino será a nova ordem.
Acordem crianças que a plenitude é veloz
e na dança dos dias quem manda somos nós.

Acordem que o tempo é curto demais.
Crianças, acordem
que o mundo ainda não escuta nossa voz”

“Baudelaire, meia noite e as flores do mal.
Um bom vinho… um bom vinho…”

Winston não vê mais seu sorriso
e Winston já não ama o Grande Irmão.
E a rádio livre derruba aviões pra informar
que Winston tem a voz:

“Acordem que o tempo é curto demais.
Crianças, acordem que o mundo
ainda não escuta nossa voz.
Acordem que o tempo é curto demais.

Recomendações: 1984 –  George Orwell, Dance of Days, Desconstruindo Amélia (Pitty), Meditações Metafísicas  de Descartes.

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Blogueira desde 2011, escreve sobre dores, amores e livros. Paulistana e mãe de 3 gatos deseja compartilhar suas paixões nesse blog.

25 comments / Add your comment below

  1. Como sempre esse tema não é novidade a nós, muito dele tem de nossas conversas…acrescento então aqui, que a liberdade do individuo perante ao estado só se da quanto este mesmo se mostra um “rebelde”, mesmo, sendo taxado de louco! não falarei da Simone, pois não tenho bagagem sobre ela, mas a colocação ficou massa e acrescento num ponto de vista feminista, que o cristianismo, também, usou muito do seu poder para fazer com que a mulher não tivesse sua liberdade, fundados em conceitos de filosofos da antiguidade!

    mais uma vez show de bola! vamos que vamos

  2. Liberdade é um tema muito complexo tanto de se pensar, quanto de se dissertar, ainda mais porque sempre vivemos num modelo de sociedade onde o estado controla nossas vontades e pensamentos. Eu li o “1984” e fiquei imaginando: Se naquela época o Arthur (George Orwell)já pensava dessa forma é porque problema sempre existiu. Se você parar para pensar a liberdade é algo muito além de “direito” do ser humano, porque muitas vezes a sua forma de pensar, agir e se expressar acaba incomodando à outras pessoas e é aí que entra aquele velho dilema “até onde minha liberdade vai?”
    É por isso que sempre bati na mesma tecla sobre sermos “Winstons” e nos tornarmos pensadores indo contra o controle que eles fazem sobre nós e ainda cito tbm:

    “Enquanto o grande irmão não pode nos ouvir nada mais importa só você aqui”

    Acho que não podemos ser intolerantes ao que outras pessoas gostam, isso só serve para segregar a população e causar o caos e intolerancia às visões divergentes.

    @jehvias

    1. Sim, é muito complexo, se eu fosse falar sobre até onde a liberdade vai escreveria umas 3 páginas… E aí também entra o respeito. Aliás, acho que segregar a população também serve pra evitar a união e que as pessoas se rebelem! …
      Foi uma viagem esse post! (:

  3. Essa coisa de 1984 é muito foda, mas o livro merecia uma versão MENOS cult. a linguagem dele por vezes é dificil e cansativa (biblia rulez) mas antes de morrer vou ler.

  4. Ainda não li este livro mas só pela letra de Insônia já dar para se ter uma base.
    Como a Jeh Vias disse, liberdade é o foco. E eu creio que o ser humano livre pode cruzar as fronteiras do impossível.
    Estou orgulhosa das minhas meninas.♥

    @Detachez

  5. Eu sempre acho que vivemos uma falsa liberdade, sempre delineada por conceitos nossos ou não. Mas, o que seria uma liberdade verdadeira? Não sei…
    Mas, as artes parecem ser as mais fiéis ao conceito.
    Vou ler o livro.

    ;D

  6. Eu também recomendo a revolução dos bichos, também de Orwell, o que é mais legal em Orwell é esse controle de dentro, mas o controle só pode ser realizado pelo grande irmão porque ninguém sabe o momento que está sendo vigiado, isso que é maluco, vejam que falamos de ibope na tv, de horário nobre e tals, mas não percebemos que nesse horário é quando eles jogam mais informações que simplesmente nos mesmerizam, o jornal nacional e novela das 9 que o diga!

  7. A liberdade é um assunto que discutimos em todos os lugares, desde rodas de amigos até com nossos pais…o seu texto foi bem completo, e adorei as recomendações feitas. Acaba sendo um assunto complexo, pelos vários entendimentos e vários anexos, que abrem mais caminhos, como se fosse algo infinito. E então, temos realmente uma liberdade?…é o que eu me pergunto

  8. Já ouvi e li muitos comentários a respeito deste livro. Ainda não tive tempo de ler, mas a cada dia fico mais interessada. Quando vi numa loja, não gostei muito pela capa, achei simples. Mal sabia que o livro tinha um conteúdo tão interessante.

  9. Antes de mais nada, gostaria de dizer que esse blog é muito gostoso de ler, não só pelo conteúdo, mas porque você usa uma fonte extremamente suave: Myriad Pro. Porém, neste discurso, isso não interessa.
    Creio que esse problema de falta de liberdade, de controle da midia com relação a nossos atos e costumes e tudo mais que venha a influenciar, só poderia ser resolvido com uma coisa. Algo que você citou no post anterior: educação. As pessoas não se deixariam enganar se eles fossem socialmente educadas. Não falo de nível de educação superior. Seria contrastante falar assim, pois conhecemos universitários que têm suas atitudes ditadas pela moda, pela propaganda. Falo de entender o funcionamento das coisas, da sociedade em si.
    E eu lhe pergunto: E por que não aprendemos a andar com as próprias pernas? Porque isso não convém para o governo!
    Muito legal o trocadilho com o slogan da globo.

    1. Obrigada! (:
      Gostei muito do seu comentário e do seu blog! Realmente funciona como um ciclo onde a Educação é a base, e sem ela todo o resto falha.
      Se quisermos uma sociedade melhor para nós mesmos, e escapar dessa falta de liberdade e manipulação de idéias e valores, temos que apostar na educação.
      Esse trocadilho é meu favorito! rs

  10. 2 + 2 = 4….Tente fazer o que o Smith fez para ver o que o “partido” faz com nós…pobres seres mortais!!! 🙂 Eu fiz uma vez e a “Elite” ficou de cabelo em pé e furiosa!!!

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